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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Verdades e lorotas inflacionárias

Por Paulo Moreira Leite

A retórica exagerada faz parte de toda campanha eleitoral mas alguns números básicos permitem questionar a afirmação mais importante da campanha de Aécio Neves na área econômica: a visão de que Dilma Rousseff perdeu o controle sobre a inflação. Será mesmo?

Sabemos para começar que a média da inflação no governo Fernando Henrique Cardoso (9,2%) foi mais alta do que no governo Lula (5,8%) e Dilma (6,1%).

Toda vez que Aécio Neves é confrontado com essa dura realidade desses números desfavoráveis, tenta responder com um argumento conhecido. Sustenta que os números de FHC sofrem uma distorção: em 2002, no último ano de seu segundo mandato, a inflação só chegou a 12,5% por causa do chamado “fator Lula,” nome de fantasia para um conjunto de ações especulativas destinadas a criar um ambiente de pânico e medo como último recurso para impedir a vitória do candidato do PT. Daqui a pouco vamos discutir a pertinência política deste argumento. Agora, vamos a outra prova dos números.

Mesmo excluindo o ano de 2002 da base do calculo, a média de FHC continua mais alta que a de Lula e Dilma. Fica em 8,8%.

Há mais.

Durante seus últimos quatro anos, o governo de Fernando Henrique teve metas de inflação. Elas estouraram duas vezes. Nos 11 anos e 9 meses dos governos Lula-Dilma, ocorreu um único estouro. Nos anos FHC, a inflação superou a meta em 50%. Na única vez que isso ocorreu, no governo Lula, o estouro foi de 10%.

É possível discutir, diante de todos estes dados, o significado do esforço de transferir para Lula, um candidato a presidente que sequer havia sido eleito e muito menos tinha tomado posse, a responsabilidade pelo que acontecia na economia, no último ano de mandato do antecessor.

É acima de tudo um truque baixo de marketing político e telepatia econômica. Destina-se a esconder o fiasco de ideias que, doze anos depois, são anunciadas como a salvação da pátria. Tenta-se argumentar que elas são mais eficientes para garantir a confiança na economia e impedir a alta de preços, que atinge os assalariados e suas famílias.

A experiência ensina que o controle de inflação não é um simples serviço de contabilidade. Envolve dar respostas a problemas inesperados, enxergar mudanças quando são apenas tendências e não perder de vista as próprias prioridades políticas.

E aí os números permitem outra descoberta fantástica. Os adversários do governo sempre disseram que as prioridades políticas de Lula e Dilma, como a proteção do emprego e do salário, os programas de transferência de renda e a defesa das empresas estatais conspiravam objetivamente contra o controle da inflação. Isso porque pressionam os gastos, que elevam o déficit, que obriga o governo a gastar o que não tem, gerando inflação. A realidade mostra o contrário.

Recusando o regime de austeridade, juros altos e corte de investimentos da equipe de FHC, o governo de Lula-Dilma conseguiu manter a inflação num patamar mais baixo. Difícil deixar de concluir que alguma coisa está muito errada na visão ortodoxa que alimenta a política econômica do PSDB, certo?

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