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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

A estrada e o retrovisor

Por Raoni Fernandes
No Blog do Zé Dirceu

Demorei alguns minutos pra perceber que pegar a estrada sozinho não era tão ruim. Logo me toquei de quanto tempo fazia que eu não tinha tanta privacidade, sem telefone, sem internet, sem companhia, duas horas e meia de estrada pela frente. Deu tempo ouvir a música que eu queria, pensar no que eu queria, pensar na vida; deu tempo sorrir e chorar, deu tempo de lembrar e até esquecer.

Em um dos momentos busquei uma lembrança bem distante, um dia especial pra mim, que sempre me faz refletir sobre o quanto sou privilegiado. Eu e Cauê, na época tínhamos 15 e 8 anos, passávamos férias escolares em Brasília. Papai nos levou pra uma solenidade em que teríamos a oportunidade de talvez ver de perto o presidente Lula. Era o dia em que ele sancionaria o PROUNI. Logo percebi vários jovens com camisas amarelas, com uma sigla estampada: MSU. Eu era até antenado, mas não era militante nem sabia que existia um Movimento dos Sem Universidade. Mas logo me situei e compreendi por que aquela galera estava tão feliz.

Lula estava apresentando um programa que iria inserir nas universidades jovens que provavelmente não teriam acesso a elas, por disputarem o ingresso em condições bem inferiores às minhas, por exemplo. Lembro que senti muito orgulho do meu pai e da geração dele, por terem lutado e conquistado não só uma democracia, mas um governo que pôde mudar a realidade de oportunidades das gerações que estavam por vir. Pensando nisso, fiquei refletindo sobre a responsabilidade da minha geração. Dizer que temos um país perfeito, que já superou todos os seus problemas, é tão egoísta quanto essa geração negar a política, se omitir e deixar passar a oportunidade de fazer esse projeto em curso avançar mais e mudar mais. Logo essa geração beneficiada – ainda em sua juventude – com expansão dos IFRNs, estruturação das universidades, PRONATEC, PROUNI, diminuição do desemprego, distribuição de renda, deixará passar a oportunidade de mostrar aos seus filhos que contribuiu com o avanço dessas políticas e criação de novas outras?

Eu sei que nós queremos mais. É justo que queiramos. Mas, apesar de a estrada à frente ser mais importante que o retrovisor e exigir mais a nossa atenção, se de vez em quando você não olhar atentamente pelo retrovisor, como saberá de onde veio e, consequentemente, para onde quer ir?

Eu sei, amigos e amigas da minha geração, que somos impulsionados a exigir o imediatismo, a querer as coisas pra agora, eu sei que às vezes achamos que 12 anos talvez seja muito, mas quando decidimos disputar o poder pelas vias democráticas, nós decidimos fazer diferente, com a ousadia de quem entende que as principais mudanças são a longo prazo e que escolhemos o caminho menos percorrido, porque os outros já haviam sido testados durante 500 anos.

Eu também me pego com pressa, mas lembro que não é mais só por mim e por vocês que luto, mas para orgulhar as próximas gerações, para não deixar o país retroceder, pois não seria justo com a geração dos meus pais (retroceder nessa eleição em específico é não reeleger Dilma e deixar a direita retomar o poder).

Escrevendo isso agora me vem à mente um poema que gosto muito, de Robert Frost, que se chama “O caminho menos percorrido”. Compartilho com vocês desejando boa luta:

“Num bosque amarelo dois caminhos se separavam,

E lamentando não poder seguir os dois

E sendo apenas um viajante, fiquei muito tempo parado

E olhei para um deles tão distante quanto pude

Até onde se perdia na mata

Então segui o outro, como sendo mais merecedor,

E tendo talvez melhor direito,

Porque coberto de mato e querendo uso

Embora os que por lá passaram

Os tenham realmente percorrido de igual forma,

E ambos ficaram essa manhã

Com folhas que passo nenhum pisou.

Oh, guardei o primeiro para outro dia!

Embora sabendo como um caminho leva pra longe,

Duvidasse que algum dia voltasse novamente.

Direi isto suspirando

Em algum lugar, daqui a muito e muito tempo:

Dois caminhos bifurcavam numa árvore,

Eu escolhi o menos percorrido,

E isto fez toda a diferença.”

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