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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Com ódio e com medo

Com atraso, li hoje esse texto de Juca Kfouri, publicado na Folha do dia 22. Um oásis de bom senso em meio a muita insanidade.

Sem ódio e sem medo foi o mote da campanha vitoriosa para o Senado do pernambucano Marcos Freire, pelo velho MDB, em 1974, em plena ditadura.

Havia, então, motivos de sobra para odiar e temer.

Hoje, quando não há, um perigoso clima de violência verbal toma conta do debate e qualquer coisa, seja um jantar com a presidenta ou a Copa do Mundo, viram motivos para destilar ódio.

O ano da desgraça de 1964 está suficientemente próximo para que as lições não sejam esquecidas e sempre é bom lembrar que muita gente boa foi no embalo da histeria que culminou no golpe midiático, civil e militar. Quando se constatou que João Goulart não iria comer as criancinhas brasileiras, e que os militares tinham apoio das oligarquias de sempre, já era tarde –e só restou protestar por mais de duas décadas.

"Jantou com a Dilma? Petralha sem vergonha, você nunca me enganou. Vendeu-se por uma boca livre", escreveu um cretino fundamental ao escriba, enquanto outro não menos dizia que "colunista tucano chama Dilma de pop". Ao menos não usou outro termo da moda, tucanalha...

Entre os neoesquerdistas e a velha direita criou-se um fosso que transformou a discussão política, e até a esportiva, em permanente Fla-Flu, como se estivéssemos na Venezuela, embora por aqui não tenha havido nem sequer uma tentativa de democracia direta, haja emprego e os protestos contra a Copa do Mundo tenham também o sentido de "quero mais", absolutamente compreensível e justificável.

É preciso ter clareza para identificar que se a violência da fome, ou da morte na fila de hospital, é ainda pior que a dos black blocs, a dos que propagam o ódio ou a justiça pelas próprias mãos também é –principalmente porque parte de pessoas tidas como letradas.

Esta coluna chamou a presidenta de pop porque gostou mais dela do que de seu governo e viu nela a intenção de fazer algo para tirar o futebol do atoleiro. Se fará ou não, veremos e cobraremos, como com FHC e Lula.

Fato é que o primeiro compromisso que assumiu já cumprirá na segunda-feira que vem, ao se encontrar com o Bom Senso F.C..

Mas a "pop", a avó, o bom humor dela aqui descritos, tiveram mais a ver com a preocupação em não demonizar quem está longe de ser a capeta e de tentar trazer para um campo mais ameno, civilizado, carinhoso até, um embate que deve terminar nas urnas e não em sangue.

Porque é de se estranhar que nem Sarney, nem mesmo Collor, tenham despertado tamanho ódio.

Terá sido porque Dilma é repudiada pela elite branca como diria o insuspeito Cláudio Lembo, ou será ele também um agente do petismo?

Será pela ascensão dos excluídos?

Ou será porque ela é mulher –e como Lennon cantou, a mulher é o negro do mundo? 

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