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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Protestos contra a Copa não são apartidários: são, na verdade, um "Fora PT"

Por Wagner Iglecias
No Jornal GGN
Neste sábado (25/01) tivemos a abertura oficial da temporada de protestos 2014. Em várias cidades do país foram convocadas manifestações para o ato “Não vai ter Copa”. Em muitas o comparecimento de público ficou bem abaixo do esperado, como aliás apressaram-se a divulgar os setores simpáticos ao governo. Mas em outras não. Foi o caso de São Paulo. Pelo menos mil pessoas concentraram-se na Avenida Paulista.

Bandeiras de variadas cores, faixas com dizeres em português e inglês, discursos e palavras de ordem diversos. Em comum, as provocações contra a polícia e os gritos contra Dilma Rousseff. Décadas de péssima ou nenhuma educação política nas escolas dão nisso. Setores de juventude branca, de classe média, chamando a polícia de assassina e bradando: "E essa Copa é uma balela, desculpa pra MATAR o povo preto na favela...ei Dilma, vê se me escuta, a Copa vai ser luta". Claro, num país em que a esmagadora maioria das pessoas não sabe a diferença entre um deputado e um vereador, natural achar que as polícias estaduais são de responsabilidade do governo federal.

Mais adiante a manifestação dobrou a Brigadeiro Luís Antônio e desceu em direção ao centro. A Prefeitura, comandada pelo PT, não passou ilesa. Em frente ao prédio a massa entoou um “Ei, Haddad, vai...”. Logo Haddad, que quando ministro não exerceu a pasta dos Esportes, e é prefeito há apenas um ano, sendo que a escolha de São Paulo como sede do Mundial ocorreu em maio de 2009!!!

O evento foi um melting pot de gente na rua, como em junho passado. Gente de luta social, ligada a partidos de extrema-esquerda, além de black blocs, anarquistas, curiosos e também pessoas que parecem recém saídas do shopping, da academia de ginástica e do playground, lugares cuja finalidade não é ensinar política, obviamente. Em que pese toda essa diversidade, no fundo fica patente certo desconhecimento em relação ao funcionamento das instituições, as competências e atribuições de cada ente federativo. Parece ser tudo “culpa do governo” e atribui-se à presidência da república praticamente todos os males existentes no país.

Os manifestantes em São Paulo gritaram contra o gasto considerado excessivo com os estádios para a Copa. Se são excessivos, ou se as obras foram super-faturadas, estão certíssimos em protestar. Motivos outros para isso também existem, como as remoções de famílias pobres das áreas das obras, os acidentes com operários que trabalharam na construção das arenas e as concessões legais feitas à FIFA. Além do que protestar contra o Mundial deve ser encarado como um ato absolutamente normal num regime democrático como o nosso, onde convivem as mais diferentes opiniões sobre os mais diversos assuntos de interesse público.

Mas é curioso como não se ouviu protestos em relação às denúncias que apontam para corrupção de bilhões de reais nas obras do metrô da capital paulista, por exemplo. É um tema que não deixa de ter relação com as tais obras de mobilidade urbana que governo federal, governos estaduais e prefeituras prometeram todos esses anos à sociedade por ocasião da Copa. Obras que até o momento não foram percebidas pela população, ao mesmo tempo em que nossas cidades se tornam piores a cada dia. Com uma agenda tão focada em Dilma Rousseff, por mais que não queiram, essas manifestações anti-Copa começam mal, e acabam passando a impressão de serem motivadas por certa indignação seletiva.

Por fim, muita gente que não sai às ruas está manifestando apoio aos protestos. Mas claro, desde que sejam sem vandalismo e apartidários. Acompanhando o que se viu hoje em São Paulo, a impressão é de que apartidários é o que eles menos têm sido. Apesar de tantas bandeiras e palavras de ordem, pelas mais variadas motivações, sinceras ou nem tanto, no fundo tudo parece se resumir a um partido e uma ideia: FORA, PT!

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e Professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.

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