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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

A onda de invasões a shoppings

Por Mauro Donato
No Diário do Centro do Mundo


Quando milhares de jovens da periferia “invadem” um shopping center, como ocorrido recentemente no Shopping Itaquera e neste último final de semana no Shopping Internacional de Guarulhos, o recado a ser compreendido é o oposto do que a média da opinião pública formula.

Eles não invadiram os shoppings para demonstrar sua raiva contra o capitalismo, combater a sociedade de consumo ou qualquer outra panfletagem. Nada disso. Antes, são adoradores do funk ostentação, desejam os mesmos bens materiais utilizados pela elite, muitos deles inclusive calçavam tênis de mil reais e bonés que custam inexplicáveis 200 paus (um boné!!). São pessoas que querem ostentar luxo da mesma maneira que a madame faz, diga-se.

As invasões em massa nesses centros aglutinadores da classe média têm o objetivo de alertar para algo muito mais profundo do que apenas “zoação”, ou “tocar o terror”. Sempre discriminados, o que esses jovens desejam é ser aceitos nesses guetos brancos, limpos, cheirosinhos, seguros e com ar condicionado. Ao contrário do que pensa a maioria, não estão invadindo para roubar. Querem mostrar que gostariam de estar invadindo para comprar, gastar. São fãs do falecido MC Daleste e sonham com relógios dourados, carros caríssimos, grifes exclusivas, champanhe e camarote.

Por que esse comportamento na pele de um jovem negro de periferia é sinônimo de mau gosto, de vazio, de futilidade, mas na carcaça lipoaspirada da madame é símbolo de status e poder? Eu não vejo nenhuma diferença.

Vestindo grifes que são vendidas nos mesmos shoppings invadidos, a única diferença entre esses jovens e as madames é a cor da pele. E o tratamento ao qual estão sendo submetidos diante dos olhos de todos, com fotos nos jornais de seguranças privados apontando armas de fogo contra meninos negros nas praças de alimentação desses locais, nada mais é do que uma ampliação daquilo que é realizado silenciosamente todos os dias, há décadas.

O mundo está ao contrário e essas pessoas e corporações não repararam. O jovem universitário, “bem nascido”, morador de Pinheiros, está morando em ocupações, brigando por melhorias nos serviços públicos, lutando ao lado de desabrigados e questionando a ganância e especulação imobiliária ao passo que o morador de Itaquera quer finalmente colocar as mãos nos objetos que durante toda a vida representaram o obstáculo para sua aceitação na sociedade. “Se o que me diferencia do outro é o quanto ele tem e eu não tenho, então agora posso comprar também.” Mas o tratamento dado a ele é diverso, é repressivo, é preconceituoso. Ao entrar na loja, será perseguido pelo segurança, receberá o desdém da vendedora, enfrentará olhares cínicos dos demais “consumidores”.

Se ele hoje está sendo expulso do shopping na base da pura segregação (pois em nenhuma das invasões ocorreu nenhum furto nem qualquer outra atitude ilícita que justificasse o cartão vermelho), não há absolutamente nenhum fato novo. As únicas diferenças são a quantidade de expulsos ao mesmo tempo e o detalhe que agora todos estão vendo isso na TV. Horrorizados, claro.

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