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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Emmanuel Bezerra: Paladino e Paradigma da Liberdade

A Comissão da Verdade do RN, na pessoa de Roberto Monte, tem levado a cabo uma campanha para recuperar documentos, informações e depoimentos sobre os anos de repressão na ditadura militar no estado.
Hoje, Roberto lembrou muito Emmanuel Bezerra, jovem estudante e militante do PCR, morto no DOI-CODI de Pernambuco e cuja osada foi descoberta na cova clandestina de Perus, em São Paulo, no fim dos anos 80.
Entre o material recuperado por Roberto, um texto de meu pai em homenagem a Emmanuel quando seu corpo foi encontrado.

Por Rubens Lemos

O velho Atheneu fervilhava de estudante naquele inicio de tarde de 1968. Fui chegando de baixo do som volumosos de gritos e palavras de ordem. A mais ouvida: "Abaixo a Ditadura". Eu fora convidado pelo estudante JOSÉ SILTON para dar uma palestra em torno da música popular brasileira.

Do alto da escadaria, no saguão de entrada, lá estava ele: EMMANUEL BEZERRA. Com sua cara tipicamente interiorana, o líder da Casa do Estudante falava agitado. As palavras fluíam fáceis e convincentes. EMMANUEL esgrimia palavras como uma espada de fogo - num belo e comovente discurso contra o regime militar que sufocava as liberdades do povo. Chamava/conclamava os colegas para - ao lado do povo organizado - combater a insanidade repressora patrocinada pelos "donos do Brasil".

Policiais (pouco disfarçados) faziam plantão, dentro e fora do Atheneu. Os olhos da Ditadura estavam voltados para aquele jovem nascido em Caiçara.

Não haveria possibilidade de realização do debate para o qual haviam me convidado os secundaristas. A música era outra; A voz de EMMANUEL BEZERRA e, ele próprio, encarnando a resistência contra o arbítrio.

Muitas vezes, mesmo que rapidamente, mantivemos contato. EMMANUEL sempre se mantinha íntegro. Coragem e determinação à flor da pele.

Um dia, a repressão iniciou a caçada sistemática ao jovem líder. Ele, porém, já estava nos becos da clandestinidade. Transformara-se num guerrilheiro. EMMANUEL, O COMBATENTE.

Em 1970, eu também procurado pela Ditadura, vi-me obrigado a correr mundo. Escondido no Rio de Janeiro, pude saber notícias de EMMANUEL: ele passara a ser um dos principais dirigentes do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Durante esse período, nunca cheguei a me encontrar com ele.

De volta à penitenciária (Colônia Penal "João Chaves") - em Natal - RN, ainda completamente massacrado pelas torturas sofridas no DOI - CODI, em Recife - PE, eu sabia, apesar de tudo, que EMMANUEL BEZERRA fora assassinado, junto com Manoel Lisboa.

A informação, obtida nos porões do DOI - CODI, era estarrecedora: EMMANUEL BEZERRA havia sido - poucos dias antes da minha chegada àquele organismo de terror - submetido às mais torpes formas de violência contra o ser humano. Todas elas comandadas, segundo a informação pelo então Coronel Cúrcio Neto, codinome Doutro Fernando. Alguns detalhes macabros: EMMANUEL BEZERRA, enfrentando o sadismo dos seus algozes, assumiu uma postura da mais alta dignidade: sabendo de tudo (ou quase tudo), não disse nada, fazendo relembrar a memorável figura de Jean Moulin, herói da Resistência Francesa, conforme André Malraux, em seu livro - documento ‘Anti - Memórias". Ensandecidos, os torturadores (teria sido, segundo me disseram, o próprio "Doutro Fernando"), cortaram a pele de EMMANUEL à base de tesoura. Sem qualquer assistência ou acompanhamento médico, sobreveio a gangrena e, posteriormente, o "tiro de misericórdia" desfechado pelo Coronel Cúrcio Neto.

O que faço, agora, é repassar o que me foi contado dentro do "círculo de ferro" do DOI - CODI, por fonte (preso político) que, não me parece, tenha estado sob qualquer suspeita da esquerda revolucionária.

O fato: o que restou de EMMANUEL foi localizado em cemitério clandestino situado a quase 4 mil kms de Recife - PE. Em princípio me causou, no mínimo, estranheza. "Alguém terá mentido?" A reflexão foi necessária e responsável para o que, hoje, me parece óbvio, em termos de conclusão: EMMANUEL era dirigente de uma Organização com profundas raízes (políticos, sociais e ideológicas) Nordestinas. O grande aparato repressor não poderia facilitar e atuou de forma profissional: translada-se o corpo para uma região, literal e geograficamente distante e distinta (em termos de valores), e ter-se-á eliminado ou embaralhado pistas. Uma questão de segurança, de acordo com a ótica da "comunidade de informação e repressão" então vigente. Infra - estrutura eles sempre tiveram para atingir os objetivos desejados. Até hoje.

De qualquer maneira, o que sabemos (e sentimos) é que EMMANUEL BEZERRA foi assassinado brutalmente por um SISTEMA cruel e desumano.

EMMANUEL BEZERRA morreu como um paladino e paradigma da liberdade do povo brasileiro. Por isso - e para revolta embutida pelos seus assassinos - ele permanece vivo.

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