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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Contra argumentos não há fatos


As novas tecnologias criaram novas possibilidades na comunicação, organizando um novo contexto cultural que mal começamos a perceber. As redes virtuais são produtoras de novos mundos, com novas relações e novas personagens, atores estreantes em diversas esferas da organização social, sempre esferas de comunicação e de poder. A chamada blogosfera tem provocado uma nova configuração na disponibilidade de informações, causando crises na chamada imprensa oficial. Os conflitos se sucedem entre as novas e antigas esferas, com novos atores ameaçando antigos. Jogo de poder que é jogo de informação e jogo de linguagem.
O livro de Daniel Lemos, “Discurso e argumentação no blog “Fatos e Dados” da Petrobrás”, se apresenta como um dos mais preciosos estudos sobre todas essas relações, em que o argumento se apresenta como uma espécie de agente principal. E se o discurso é uma violência exercida contra as coisas, como diz Foucault, o argumento, trama central em todo discurso, se estabelece com uma autonomia que dispensa a própria coisa. O fato, se é que isso existe, está à disposição dos agentes em conflito, os quais argumentam com toda força dos recursos disponíveis, estabelecendo uma imagética comparável às justas medievais nessas novas roupagens tecnológicas.
O conflito se estabelece a partir de um blog criado pela Petrobrás, “Fatos e Dados”, cujo objetivo é exatamente contrapor à imprensa oficial um outro discurso. Criado como estratégia de encontrar um espaço de se defender da força da mídia, jornais e televisão, especialmente a Rede Globo, que participam da instalação de uma CPI contra a Petrobrás, no ano de 2009. Aproximava-se o ano eleitoral de 2010 e a oposição ao governo precisava construir fatos e a agenda da mídia caminha quase que constantemente nessa direção.
Esse livro é resultado da tese de doutorado em linguística de Daniel Lemos. O poder da linguagem é colocado no âmbito dos novos suportes virtuais, e o caso específico do blog da Petrobrás é estudado como fenômeno que acena para novas relações no campo da informação, em que a cibercultura pode acontecer como lugar de quebra de monopólios, portanto de oportunidade de maior democracia.
“Os blogs são, talvez, a primeira grande experiência daquilo que Lévy (1999) qualificou como revolução promovida pelo ciberespaço, uma vez que liberta o usuário da Internet para que, dispensando intermediários, possa disseminar seu próprio fluxo de informações (seus textos, suas músicas), construindo seu mundo virtual, os produtos de seu espírito, estabelecendo relações sociais e constituindo uma realidade social sob o seu absoluto critério individual” (Lemos, Daniel. Discurso e argumentação no blog “Fatos e dados” da Petrobras. Feira de Santana, BA: Curviana, 2013, p. 269).
Como comunicação de crise, o blog surge como suporte auxiliar para a construção de argumentos da Petrobras e para que a função dialógica da linguagem escape das tentativas de rarefação e ocultação por parte de uma espécie de monopólio da informação. Desse modo, podemos perceber que aquilo que comumente chamamos de fato é o produto de uma estratégia de noticiamento e de argumentação que prevalece sobre outras. O fato é uma criação da linguagem, um argumento que deu certo e foi capaz de criar consenso para o seu público.
Os jogos políticos se sucedem e as estratégias discursivas se recompõem ciclicamente. Novamente, estamos às vésperas de um ano eleitoral e já podemos perceber nas entrelinhas da informação o conflito causado pelas disputas que se avizinham. Não existe neutralidade política nem neutralidade da informação. A CPI da Petrobras em 2009 não conseguiu atingir os seus objetivos políticos, e o blog “Fatos e Dados”, junto com outros atores, foi um dos responsáveis por isso. Em menos de seis meses atingiu a marca histórica de dois milhões de visitantes. Em sua querela argumentativa estabeleceu uma certa vitória sobre os seus oponentes, demonstrando a força advinda do ciberespaço, a qual se desenha cada vez com mais vigor.
O livro de Daniel Lemos nos faz ficar atentos a todos esses fenômenos e a analisar as estratégias discursivas que estarão em vigor daqui por diante. Os fatos, em certo sentido, são criaturas do argumento. O jogo político é um jogo de interesses, lugar em que a maioria quase nunca é representada condignamente. Não podemos ser ingênuos diante da pretensão de neutralidade e objetividade da informação. Os discursos são construções poderosas e perigosas, deixando-nos sempre com a impressão de que contra argumentos não há fatos.
*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE. Também faz parte da diretoria da Aliança de Batistas do Brasil e é membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil.
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com.

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