Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Manifestações em Natal: A Caixa de Pandora está se abrindo?

Por Wellington Duarte
No Blog Velho Ranzinza

Na quinta-feira (20) Natal teve uma das maiores manifestações populares da sua história recente. Um mar de jovens, especialmente jovens, inundou a BR-101 e expôs as entranhas de um sistema político anacrônico, que há muito deixou de estar em sintonia com o desenvolvimento da democracia, mas que permanece presente graças a uma série de elementos que ainda não foram superados.
Natal em 20 de junho : milhares na BR-101
Banho de democracia? Certamente que a democracia brasileira, que tem apenas 28 anos, foi sacudida por milhares que foram as ruas do Brasil e pelos pouco mais de 20 mil que se espalharam pela BR-101, numa miríade de cores e interesses. É de se lamentar que a retirada dos ônibus, estratégia dos empresários com o beneplácito do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do RN (SINTRO-RN), tenha desestimulado, quero crer, a participação de milhares de trabalhadores que poderiam ter engrossado essa manifestação. Mas isso é mera suposição.

BR-101 em Natal : a maioria era de jovens.
Acompanhando uma tendência vista nas últimas manifestações, emergiu um grito “apartidário”, violento e truculento, estranho a manifestações que seriam “democráticas”, animado pelo sentimento, justo, de indignidade contra um sistema que eles mesmos sustentam, ou pelo menos sustentavam até semanas atrás, via apatia política e o voto sem critério algum.
As bandeiras dos partidos foram hostilizadas
A moçada, movida pela adrenalina e animada pelos sussurros e gemidos vindos da obscuridade fascista, puseram em ação a truculência anti-democrática via gritos de liberdade e democracia.
Democracia....democracia?
Protesto que, se num primeiro momento foi considerado “baderna” pela mídia, como num passe de mágica, passou a ser “manifestação” e a “baderna” passou a ser reverenciada como um “muda Brasil”, talvez numa referência ao “Fora Collor”. A crise de representação, que se arrasta desde a década de 90, agora foi exposta à sociedade e a face dessa crise é feia.

A alegria, mesclada com indignação, sem líderes ou liderados, agrada à imagem de quem defende a liberdade do indivíduo, aquele que não responde a ninguém senão a ele mesmo. Não é toa que a postura anarquista voltou a ser vista, por essa massa, como algo atrativo, embora seja uma espécie de “anarquismo soft”, sem referência aos postulados anarquistas e muito mais movido pelo rechaço ao modelo vigente.
Manifestações em todo o Brasil, e especificamente aqui, com várias bandeiras, vários questionamentos e enfurecida pelo anacronismo do sistema de representação política, por um Judiciário corporativo e por uma camada dirigente que, em boa medida, assenhorou-se do aparelho do estado para se auto-reproduzir, fez essa massa literalmente “surtar”. E pequenos grupos, nada desorganizados, aproveitaram esse momento para apresentar seu propósito : a destruição pela destruição, como que para ser um grito de revolta e não apenas de protesto.
Vários pequenos movimentos, sendo o mais expressivo deles o #Revolta do Busão, mergulharam no processo, reverenciando o espírito apartidário e realçando a face democrática via “coletivos”, como se isso não fosse uma forma de organização. A máscara do Anonymus provou que a não-face, que expressa um sentido do “eu sozinho”, também carrega a semente do niilismo que não se sabe bem para onde vai.
Mas manifestações foram infiltradas por provocadores que realizaram atos violentos e assumiram bandeiras políticas reacionárias, mirando não nos governadores e prefeitos, e muito menos nas câmaras, assembleias ou o próprio parlamento. O alvo, claramente passou a ser a presidente Dilma Roussef, e isso ficou claro nas intervenções dos articulistas reacionários da Veja, o esgoto midiático que se apresenta como revista.
A transformação da luta democrática e social em um cenário de caos e desordem é o “sonho de consumo” forças da direita golpista, que se antes pareciam um delírio esquerdista, agora o que se vê é o seu assanhamento.
Resta saber até onde essas manifestações irão. E também como a esquerda vai se comportar diante dessa situação.
Pandora está se abrindo.

Comentários

Postagens mais visitadas