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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

"Balas de borracha não apagam a verdade"

Ontem, na saída do estádio cruzamos com o Batalhão de Choque se retirando.  Um PM perguntou o placar do jogo para uma família à minha frente. "Dois a zero", responderam.  "Aqui também vencemos por dois a zero", disse outro policial.
Aí eu comecei a pensar: como a polícia tributa como vitória um enfrentamento contra cidadãos - cerca de 100 mil estavam nas ruas, conforme a PRF - que pagam seus salários?

Por Plínio Bortolotti
Em O Povo

Nunca tive dúvida de que as manifestações que acontecem em todo o Brasil são pacíficas, pela esmagadora maioria de seus participantes, e pude comprovar comparecendo ao ato de ontem. Grupos de jovens desciam de ônibus na BR 116 e caminhavam alegremente em direção à avenida Alberto Craveiro, alguns preparando seus cartazes ali mesmo, no chão, indicativo da espontaneidade dessas manifestações.

Essas placas também são reveladoras do caráter múltiplo do protesto. Não faltaram o humor das expressões cearenses, “Aí dênto, Fifa”, com a sua antítese: “Hoje a terra do humor quer falar sério”; havia meninas tranquilizando a família: “Mãe, relaxa, estou mudando o Brasil”; até os mais politizados: “Queremos saúde e escolas com padrão Fifa”. Vi também cartaz com trecho de poesia de Carlos Drummond: “Tenho duas mãos e o sentimento do mundo” e outra com um longo texto de Alberto Camus (escritor existencialista francês), cujo conteúdo não consegui ler. A diversidade dava o tom e o clima de camaradagem entre os manifestantes, mesmo entre os que não se conheciam, era visível.

Assim, chega a ser um ponto fora da curva a hostilidade aos partidos políticos de esquerda, cujos militantes mais antigos podem ser considerados “tios” dessa rapaziada. Foram eles que abriram caminho para a democracia, que todos desfrutamos hoje. A cada vez que se levantava a bandeira de um partido, imediatamente ouviam-se palavras de ordem: “Sem partido, sem partido” ou “O povo unido não precisa de partido”. (Os jovens do Egito podem ter pensado a mesma coisa.) Um integrante do PSTU me disse: “Estamos sofrendo, mas estamos aí”, referindo-se à rejeição com que eram recebidos.

Disse acima que as manifestações são pacíficas, mas existe meia dúzia que provoca e joga pedras, mesmo que os manifestantes tentem contê-los (vi um jovem confrontar os vândalos) e os participantes unirem-se no coro “Sem violência”.

Porém, a reação da Polícia Militar é absolutamente desproporcional. E, aí, não dá para saber se o governador Cid Gomes (PSB) e a Polícia Militar são despreparados ou mal intencionados: não se contentam com as bombas de gás lacrimogêneo e o spray pimenta (que podem provocar graves ferimentos). Usam indiscriminadamente balas de borracha - que tem sim poder letal.

Foi criminoso o uso desse tipo de munição, ferindo gravemente algumas pessoas. O Ministério Público deveria abrir uma ação para responsabilizar a quem de direito. E, sugiro à PM e ao governo, que reflitam sobre a advertência de uma manifestante: “Balas de borracha não apagam a verdade”.

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