Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

"Sem proteção": Um convite à reflexão sobre os movimentos sociais de juventude

Quando a gente olha para a história do Brasil no fim dos anos 60 e início dos anos 70 sem muita dificuldade elaboramos a lista de organizações de esquerda que optaram por uma oposição armada à ditadura militar.
Em meu blog, falo muito sobre o PCBR no qual lutou meu pai.  Mas posso citar o PCdoB e a Guerrilha do Araguaia.  Não se pode esquecer da ALN de Marighella.  E outras tantas organizações.
Mas o que a gente normalmente não conhece é a existência de movimentos sociais e políticos semelhantes em países como os Estados Unidos.
"Sem proteção"("The Company You Keep"), novo filme dirigido e estrelado por Robert Redford, me apresentou ao Weather Underground, movimento radical que surgiu do Student for Democratic Society.  Os partidos lutaram pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietnam.  Explodiram bombas em prédios públicos e realizaram assaltos a banco.  No solo americano.
E você provavelmente não sabia disso.
Não pretendo escrever uma resenha sobre o filme de Robert Redford.
Após um fim de semana muito cansativo acompanhando o WebFor 2013 e recebendo amigos de Natal para o evento, estava no Shopping ontem quando me arrisquei a assistir um filme que tinha Redford no elenco.  "Robert Redford é sempre garantia de muita reflexão", pensei, apesar de o cartaz nos enganar e fazermos pensar que o filme é apenas mais um de ação.
O filme conduz duas linhas reflexivas importantes para mim.
A primeira, a jornalística.  Recomendo fortemente que todos os estudantes de jornalismo, especialmente meus alunos, assistam o filme e acompanhem a história sob a perspectiva do personagem Shia LaBeouf. Questões técnicas, éticas, profissionais e do negócio da imprensa, que temos discutido em sala de aula, aparecem no filme de forma clara.
A segunda, a militante.  O filme nos convida a olhar os movimentos sociais de juventude que varreram o globo a partir do fim dos anos de 1960 - e a partir deles, nos convida a refletir sobre os movimentos contemporâneos.  Da Primavera Árabe ao Occupy Wall Street, passando pelo #ForaMicarla e a #RevoltadoBusao.  E me fez pensar em como a informação, na era da Internet, consegue ser ainda mais controlada hoje do que há quarenta anos.  O campo midiático escondeu de tal modo os movimentos contemporâneos, os igualou em boa parte dos lugares a vandalismo e crime, que você pode imaginar que dois anos depois tudo cessou.
Haja controle.
No campo militante podemos descobrir que os processos de criminalização - e repressão - dos movimentos sociais são se diferenciam muito aqui no Brasil ou nos Estados Unidos.
Para alguns personagens do filme, o conformismo e o abandono das lutas é resultado do amadurecimento.  "Viramos nossos pais", diz o protagonista em um diálogo.
Um outro personagem critica os antigos militantes que transformaram sua luta em ganha pão, acadêmico e profissional.  A luta se transformou em objeto de análise.  E os alunos aplaudem bastante quando ele, o ex-militante professor, conta isso em sala.  Depois, partem para o Facebook e esquecem tudo o mais.
"Sem proteção" conta a história americana do Weather Underground e do Student for Democratic Society, mas podia estar contando, na verdade, uma parte de nossa história.

Comentários

Postagens mais visitadas