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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Em defesa da descriminalização das drogas no Brasil



Publicado originalmente no No Minuto

Mal informada pela mídia, pela polícia e pelos governos, a opinião pública, principalmente no Brasil, olha para o lado na questão das drogas. Ainda mais agora que uma força conservadora, quase incontrolável, varre o debate público.

A opinião pública olha para os consumidores de crack nas craquolândias Brasil afora. Olha também para o pequeno traficante, muitas vezes funcionário subalterno da indústria das drogas. Aliás, não raro, celebra a morte desses bandidos.

Por que eu digo que olha errado?

O tráfico de drogas é o negócio mais rentável do mundo contemporâneo. Movimenta, segundo a ONU, a bagatela de US$ 400 bilhões ao ano. Somente esse dado vale a pergunta que eu ouvi, a primeira vez, ser feita pelo advogado Marcos Dionísio Medeiros Caldas: Com um negócio tão lucrativo, quem é capaz de acreditar que o dono do tráfico continue morando nas favelas? Em outras palavras: numa indústria de cifras tão bilionárias é ingenuidade acreditar que gente como Fernandinho Beira-Mar, por exemplo, ocupe posição de relevo na organização.

Os donos do tráfico moram nos endereços chiques de nossas cidades. E posam de homens de bem - possivelmente daqueles que defende a pena de morte para o pequeno criminoso que cometeu um crime contra a vida ou contra o patrimônio privado.

Inúmeros bancos sobreviveram à bancarrota da crise mundial porque são usados no maquinário de lavagem de dinheiro do crime organizado global, mostra o jornalista italiano Roberto Saviano na edição de Carta Capital desta semana.

A matéria de capa dessa edição de Carta Capital, em um texto muito bom, aborda - e defende - a descriminalização das drogas. Comprova, com muitos exemplos, que a descriminalização das drogas sufocaria, inevitavelmente, a participação do crime organizado internacional no negócio - com evidente diminuição da violência. Os números internacionais mostram, inclusive, que ao contrário do que afirma o discurso conservador, as experiências de controle e liberação de comércio e consumo de drogas leves diminuem a incidência de drogas pesadas entre os usuários. Além de reduzir os números de doenças como AIDS e, é claro, o número de presidiários.

Além disso, mostra como é muito mais eficiente, no enfrentamento da questão, as políticas de redução de danos que as posturas repressivas. Aliás, lembra bem a matéria de Willian Vieira, o tratamento do usuário deveria ser questão de saúde, não de polícia.

O governo federal lançou, ano passado, o programa “Crack, É possível vencer”. Prevê o gasto de R$ 4 bilhões - inclusive adquirindo armas de choque e treinando policiais para o seu uso.

Olhamos para o lado errado. Por isso, nos submetemos a transferir recursos para “comunidades terapêuticas” tratarem dependentes, ao invés de investirmos na capacitação e melhoria da rede de saúde, como os CAPS AD, para um tratamento adequado à questão.

Esta semana surgiu em minha timeline do twitter um apelo para que a sociedade faça algo urgente sobre o crack. Se depender de como vem sendo informada nossa opinião pública, não há futuro: qual sociedade vai se preocupar com um enfrentamento adequado da dependência química se é essa sociedade que aplaude o extermínio de usuários ou sua internação compulsória?

Não, não queremos lidar com a questão do crack ou de qualquer droga. Queremos excluir de nosso campo de visão os usuários e os problemas que causam.

P.S.: Em Goiânia, um grupo de extermínio tem executado moradores de rua. A polícia não investiga adequadamente porque já encontrou a razão das mortes: consumo de drogas e dívidas com traficantes. A polícia potiguar se comporta de igual modo: qualquer morte com sinais de execução se transforma em acerto de contas com tráfico. Desse modo, a sociedade se dá por satisfeita (afinal, em sua visão, consumidor morto é menos crime na cidade), a imprensa esquece o caso e a polícia se furta a investigar, de verdade, as mortes.

Isso prova que não estamos preocupados com o impacto negativo das drogas: queremos limpar nosso campo de visão dos usuários. Bom que estes sejam mortos ou internados compulsoriamente.

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