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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

#ForaFeliciano: A maldição de Cam

Por Hélio Schwartsman
Na Folha de São Paulo

Ao que consta, o pastor Feliciano ganhou a pecha de racista por ter ligado africanos à maldição de Cam, narrada em Gênesis 9:20-27. Não sei se o sacerdote é ou não racista, mas, como exegeta da Bíblia, ele caiu no meu conceito.

A história é meio confusa mesmo. Cam, filho mais novo de Noé, encontrou o pai embriagado e desacordado, mas, em vez de guardar pudor e cobrir o ancião, foi logo contar o sucedido aos irmãos. Por isso, o construtor da arca amaldiçoou não exatamente Cam, mas seu filho Canaã.

No livro "A Maldição de Cam" (disponível só em inglês), David Goldenberg indica, de forma convincente, que o sentido original do texto bíblico não apresentava nenhum viés contra negros. Na obra, que é deliciosamente erudita, fazendo-nos saltar da literatura rabínica para o Alcorão, passando por lições de filologia hebraica e sermões de pastores do sul dos EUA, Goldenberg mostra que é a partir do início da Era Cristã, quando a proporção de escravos oriundos da África subsaariana coloca os negros em maior evidência, que a maldição vai ganhando interpretações mais racistas, que incluem até a fabricação de etimologias falsas ("Cam" significaria "queimado", "negro").

Quando chegamos ao ápice desse movimento, entre os escravagistas do sul dos EUA no século 19, aí sim passa a ser dado como "fato" que Deus lançou uma maldição sobre os africanos. Isso talvez não baste para provar que o pastor é racista, mas sugere que ele bebe nas piores fontes.

Quanto à Bíblia, ela parece, de fato, inocente da acusação de preconceito contra negros. É que, à época, seus autores estavam mais preocupados em nos ensinar a matar homossexuais (Levítico 20:13), nossos parentes que mudem de religião (Deuteronômio 13:7) e a vender nossas filhas como escravas (Êxodo 21:7).

É claro que o problema não está na Bíblia, mas em achar que um livro velho possa encerrar todas as verdades morais de que precisamos.

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