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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Linchamento em Natal: Um retrato da naturalização da violência

Por Leonardo Alves
Cientista Social e Membro do Centro de Referência em Direitos Humanos
Na Carta Potiguar

Ao assistir a um vídeo em que dois suspeitos de roubo foram linchados por populares da Zona Oeste de Natal, no último final de semana, me vieram duas perguntas: Quem de fato estava agindo de forma ilícita? Como explicar para uma sociedade indignada pelos males sociais, que não se pode fazer justiça com as próprias mãos?

Práticas como a do linchamento ou semelhantes ignoram o princípio da proibição da autotutela, o qual garante o direito exclusivo do Estado como garantidor da lei, da ordem social e da Justiça, além de que são classificadas como crime no art. 345 do código penal.

Art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite:
Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência.
Parágrafo único – Se não há emprego de violência, somente se procede mediante queixa.

Casos como esses acontecem com maior frequência onde a população se encontra familiarizada com a violência, descrente da eficácia dos aparelhos judiciais e da polícia como mantedora da ordem e da segurança pública.

Os linchamentos são então uma maneira de expressão da injustiça e insegurança presentes na população, a partir do sentimento de impunidade gerado pela lentidão do judiciário, inadaptabilidade das leis e deficiência na administração do sistema penitenciário que acabam exaltados através das mídias sensacionalistas.

Vale a pena ressaltarmos a influência que essas mídias exercem sobre a sociedade, quando um dos cidadãos envolvidos no linchamento faz referência ao apresentador do Programa Patrulha da Cidade, incitando o mesmo a mostrar o que acontece com aqueles que tentam roubar naquela região.

O referido programa já se tornou referência no quesito banho de sangue, onde nos contempla com as infelizes imagens de corpos baleados, esfaqueados, entre outros. O teor do programa fica claro com o seu próprio título e fundo de tela que é preenchido com a imagem de sangue escorrendo. Além da violência explícita presente no programa, vemos um claro incentivo a sua prática por parte do apresentador o qual não mede esforços ao incitar a morte aos “bandidos”, o sofrimento incondicional aqueles que cometem crimes e a zombar de maneira pejorativa dos suspeitos entrevistados.

Com a repetição diária de programas como esse, aliado a um sentimento de indignação popular que enterra a civilidade, temos um retrocesso no processo civilizatório, onde voltamos a punir em praça pública aqueles que julgamos culpados, através de um senso de justiça popular muitas vezes incitado por mentes conservadoras e motivadas por interesses próprios no ocorrido.

Concluímos aqui esclarecendo que não procuramos defender a impunidade dos dois suspeitos de roubo, apenas lutamos pelo emprego correto da lei e das forças coercitivas do Estado, bem como para que todos os cidadãos tenham a possibilidade de defesa dos seus direitos, pois ao tentarmos fazer justiça com as próprias mãos podemos acabar indo contra ela.

Abaixo, o video sobre o linchamento:


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