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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Dirceu e meu encontro com meu pai no passado

Nos últimos tempos, mergulhei para tentar compreender detalhes da minha história e da história de meu pai que para mim pareciam incompreensíveis.

Algumas motivações me mobilizaram a isso - mas o que importa é perceber que amadureci alguns anos em poucos dias.

Percebi, principalmente, que a clandestinidade era o padrão de vida que meu pai escolheu para si desde que resolveu lutar pela Revolução e contra a Ditadura (não necessariamente na mesma ordem).

Se há dez anos sabia muito pouco de meu pai, o que fui descobrindo nesse tempo era muito rico. No entanto, o que soube nos últimos dois anos - em particular, nos últimos meses - me esclareceu muito. Se em 2005, num paper, eu achava que havia algo não-dito quando meu pai relatava ter sido torturado por Sérgio Paranhos Fleury, hoje eu já sei o porquê.

Para entender minha vida e a do meu pai tive de entender a militância que ele exerceu entre os anos 60 e os anos 80. Assim, clandestinidade se tornou proteção e cuidado com os entes queridos.

Por exemplo: no fim dos anos 60, meu pai mandou sua família retornar a Londrina para protegê-los dos riscos que corriam devido à militância e sua repressão.

Ele fez minha mãe acreditar que eu corria risco de morte na minha infância. Hoje eu o entendo nisso que disse.

Olhar a luta armada com tanta atenção, da perspectiva de meu pai, me fez entender de outra maneira o que aconteceu no Brasil em 2005. E 2005, para mim, somente pode ser entendido na perspectiva de 1960. Sob vários aspectos. Mas sobre eles converso depois.

O que importa é que não me faz mal, pelo contrário, manifestar meu apreço e receber o carinho de José Dirceu, como nesta noite. O seu abraço carinhoso não era em mim, que ele sequer conhecia. Era no meu pai, "seu companheiro de armas".

Não escondo esses afetos. Não é do meu feitio.

Na foto, eu, Dirceu e o deputado estadual Fernando Mineiro.

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