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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Você ouve o povo cantar?

Hoje à tarde assisti pela segunda vez "Os miseráveis".  
A primeira, evidentemente, me fiz acompanhar de minha esposa.  A segunda, hoje, fui com minha mãe.
Concordo com uma parte das críticas de Darlano Dídimo aqui mas o fato de assistir ao filme pela segunda vez já denuncia que gostei mais do filme que ele.
Aliás, tenho minhas dúvidas se "Os miseráveis" não ocupou o lugar de melhor filme que vi na vida - lugar que era de outro musical com fortes conotações sociais e políticas, "O violinista no telhado".  As duas escolhas demonstram que gosto de musicais.  
Nunca vi "Os miseráveis" no teatro.  O violinista assisti, com José Mayer no papel de Tevye, em 2011. Tenho o filme em casa.  Terei "Os miseráveis".
Com minha mãe ao lado, algumas coisas da história de Jean Valjean ganharam outra riqueza e significado.
Mas há três momentos muito marcantes naquela história.  
Marcam porque dialogam com minhas visões de mundo como cristão, minha visão política e meu papel como pai.
Muito provavelmente a cena que mais me faz refletir na história é esta canção de Javert (aqui, Javert é Philip Quast na apresentação de 10o aniversário do musical da Broadway, em 1995):



Não publicarei a letra nem a tradução.  Javert ora a Deus pedindo que lhe permita encontrar e punir Jean Valjean.  Ele diz:
Ele sabe que seu caminho é das trevas
E o meu caminho é o do Senhor
Acontece que Valjean foi alcançado pela graça e compaixão de Deus que o fez abandonar seu ódio e seus planos de vingança.
Javert, em sua missão de fazer cumprir a lei, assisti tudo preto e branco.
A disputa entre graça e legalismo no mundo cristão é muito isso.
Em outras palavras, Javert me parece um espelho do evangelho pregado por Silas Malafaia e todos os cristãos conservadores que não acham justo ou cristão que homossexuais e outras minorias possam ter seus direitos - não apenas sociais ou políticos, como também religiosos.  Na sua prática, na sua vida e no seu discurso - no caminho do Senhor - não há espaço para perdão, para graça, para recomeço, para amor.  Amor lhe falta na fala.  O Deus a quem serve não ama.
Desafiado pelo amor e pelo perdão gracioso e divino, Javert, ao contrário do que ocorrera a Valjean, prefere morrer a viver no mundo de Valjean - o mundo de liberdade, de amor.
No contexto atual no Brasil de Malafaia, o personagem Javert e sua recusa em compreender o que significa amor e perdão - sua vida de ódio -, são plenamente educativos e esclarecedores.
O segundo momento que me tocou mais intensamente é a declaração de Valjean a Cosette.  Todos que são ou foram pais sabem como um filho representa a descoberta de quanta esperança e luz existem em nosso interior.
Valjean canta, com a pequena Cosette deitada em seu colo, que não sabia haver tanta esperança dentro dele, que a vida mudou com a chegada da menina ao seu mundo.  No epílogo, Valjean confessa que o amor pela filha o vez trocar o ódio e a vingança pelo perdão.
O terceiro momento que me impactou no filme é a grande canção da história (não acho que seja "I dreamed a dream", a propósito).
Viva a Revolução:




Você ouve o povo cantar?
Cantando a canção dos homens furiosos
Essa é a música de um povo
Que não será escravo novamente
Quando a batida do seu coração
Ecôa na batida dos tambores
Há uma vida prestes a se iniciar
Quando a manhã chegar
Você vai se unir a nossa cruzada?
Você será forte e ficará comigo?
Além da barricada
Há um mundo para se ver por muito tempo?
Então junte-se à luta
E você ganhará o direito de ser livre
Você ouve o povo cantar?
Cantando a canção dos homens furiosos
Essa é a música de um povo
Que não será escravo novamente
Quando a batida do seu coração
Ecôa na batida dos tambores
Há uma vida prestes a se iniciar
Quando a manhã chegar
Você dará tudo que pode dar
Para que nosso estandarte possa avançar?
Alguns vão morrer e alguns vão viver
Você vai se erguer e agarrar sua chance?
O sangue dos mártires
Vai regar os prados da França!
Você ouve o povo cantar?
Cantando a canção dos homens furiosos
Essa é a música de um povo
Que não será escravo novamente
Quando a batida do seu coração
Ecôa na batida dos tambores
Há uma vida prestes a se iniciar
Quando a manhã chegar

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