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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Operação Navalha: Recebimento da denúncia será julgado em março

A revista Época, há duas semanas, mostrou os indícios de envolvimento do senador Renan Calheiros e do deputado Henrique Eduardo Alves nos esquemas desvendados pela Operação Navalha.
Relatora Eliana Calmon diz que que vê risco de impunidade; discussões sobre foro privilegiado podem mandar ação para tribunal de 1ª instância e resultar na prescrição de crimes; "Zuleido tem bastante provas. Em relação a João Alves Filho, acho que a prova é frágil, mas em relação ao grupo que estava na empresa, provas são contundentes", diz.
O dia 17 de maio de 2007 ficará marcado na memória política de Sergipe. Foi neste dia que a Polícia Federal deflagrou a Operação Navalha, quando o filho do atual prefeito de Aracaju, João Alves Filho (DEM), o empresário João Alves Neto, e o conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe, Flávio Conceição, e outra 45 pessoas foram presos por suspeita de favorecimento em licitações à empresa Gautama, de Zuleido Veras.
Passados quase seis anos, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) marcou para os dias 14 e 15 de março sessões extraordinárias para que os ministros analisem o recebimento da denúncia decorrente das investigações. A relatora é a ministra Eliana Calmon. Ao todo são 17 pessoas denunciadas pelo Ministério Público Federal. No dia 14, a sessão terá início às 14h e no dia 15, às 9h.
Em 2007, a Operação Navalha da Polícia Federal revelou a existência de suposta quadrilha que, contando com o envolvimento de servidores públicos e agentes políticos, teria promovido o desvio de recursos da União e dos Estados de Alagoas, Maranhão, Piauí e Sergipe. Diz a denúncia que em cada Estado a quadrilha aliciava servidores públicos com o fim de obter vantagens ilícitas, fraudando contratos e licitações.
Em março de 2010, o STJ determinou o desmembramento da Ação Penal, permanecendo na corte apenas o conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe, Flávio Conceição de Oliveira Neto (que tem prerrogativa de foro), e as pessoas relacionadas aos fatos imputados a ele no tópico da denúncia denominado "Evento Sergipe”.
No processo que segue no STJ consta o envolvimento de 11 pessoas de Sergipe. São eles: Flávio Conceição, João Alves Filho, João Alves Neto, Ivan Paixão, Victor Mandarino, Gilmar Mendes, Max Andrade, Roberto Leite, Kleber Curvelo Fontes, Sérgio Duarte Leite e Renato Conde Garcia. Os outros seis réus são da Bahia: Zuleido Veras, dono da Gautama e chefe do esquema; Maria de Fátima Palmeiras, braço direito de Veras e diretora comercial da Gautama; Gil Brito Vieira, Humberto Rios de Oliveira e Ricardo Magalhães Silva.
Zuleido era amigo do ex-presidente do Senado Renan Calheiros, responsável pela nomeação de um secretário de Estado alagoano também preso por envolvimento no esquema. E cultivava outras tantas amizades no Congresso e com políticos de quase todo o Brasil. Gostava de contar vantagens. Quando se referia a determinados políticos, para demonstrar intimidade, usava um indefectível bordão: “Ali eu mando”.
Supõe-se que o braço direito de Zuleido em Sergipe era Flávio Conceição, secretário da Casa Civil do Governo João Alves até 2006 e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado empossado em dezembro daquele ano.
O nome de Flávio Conceição ganhou relevo no despacho da ministra Eliana Calmon, relatora do processo e autora dos mandados de prisão, busca e apreensão. Quanto à participação dele e de João Alves Neto aparecem logo no segundo nível, onde estão agrupados os auxiliares e intermediários que, “mediante o recebimento de vantagem indevida, valem-se da influência que possuem para ‘convencer’ os agentes públicos à prática dos atos necessários a que a organização criminosa alcance os seus objetivos ilícitos”, segundo documento da ministra.
É a ministra Eliana Calmon quem descreve: “Flávio Conceição de Oliveira Neto, de chefe da Casa Civil do governador João Alves Filho passou a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, participando da organização criminosa como elo entre o Governo do Estado e Zuleido Veras, do qual recebeu, diversas vezes, em recompensa pelos serviços prestados, vantagens indevidas”.
Em mais um trecho do texto da ministra, ela explica como se dava o jogo de influência na Companhia de Abastecimento de Sergipe (Deso): “No exercício do cargo de chefe da Casa Civil do Governo do Estado, foi ele [Flávio Conceição] quem conseguiu junto ao diretor da Deso o desvio de R$ 600 mil para a Gautama, como uma medida emergencial; pediu, em diversas oportunidades, ajuda financeira a Zuleido Veras, destacando-se o pleito formulado em 6 de setembro de 2006, no valor de R$ 216 mil, que deveria ser entregue a João Alves Neto, filho do então governador de Sergipe”.
“Após ter assumido o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe — afirma a ministra Eliana Calmon —, pleiteou a autoridades do Governo de Sergipe a liberação de recursos devidos à Gautama e articulou o direcionamento de novas obras à empresa, como a do município de Aquidabã”. E a revelação importantíssima: “Usando sua influência no TCE/SE, (Flávio Conceição) conseguiu a suspensão de um processo de licitação que estava sendo feito pela Deso para contratar empresa de auditoria fiscal e contábil para auditar sete obras dirigidas pelo órgão”.
Quanto a João Alves Neto, a ministra é mais lacônica, mas não menos rigorosa: “Apesar de não exercer cargo público, efetivamente comandava a área financeira do Estado. Recebeu vantagens indevidas da organização criminosa para: a) autorizar a liberação de recursos em favor da Gautama; e b) para viabilização de empréstimos (para isso encontrou-se pessoalmente com Zuleido Veras)”.
Em maio de 2010, o processo criminal que deu origem à operação foi encerrado pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Em decisão monocrática, o juiz convocado Abelardo Paulo da Matta Neto, relator do inquérito policial que investigava, entre outros acusados, o prefeito de Camaçari, Luiz Caetano (PT), entendeu que os crimes de fraude a licitações, corrupção e tráfico de influência não ocorreram, já que não ficou comprovada a lesão ao erário.
Em novembro passado, a ministra disse que vê risco da impunidade dos réus. Discussões e jurisprudências sobre o foro privilegiado podem mandar a ação para um tribunal de primeira instância e resultar na prescrição de alguns crimes. Isso porque o caso já está, nas palavras da ministra, “todo retalhado” em varas de primeira instância em vários estados.
Eliana Calmon afirma que isso enfraquece as provas e favorece a impunidade. “Essa retalhação do processo acaba por fazer uma divisão da prova. A prova fica fragmentada. Com a prova fragmentada, nós temos naturalmente uma fragilidade”, avalia.
Eliana Calmon afirmou ainda serem frágeis as provas contra João Alves Filho e seu filho João Alves Neto. Já contra Zuleido, ao contrário, as provas seriam fartas. “O Zuleido tem bastante provas. Em relação ao João Alves Filho, eu acho que a prova é muito tênue, frágil, mas em relação ao grupo que estava na empresa as provas são muito contundentes”, diz.

Com informações da Assessoria de Imprensa do STJ, do Congresso em Foco e do blog do jornalista Marcos Cardoso

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