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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

E o Óscar vai para... a CIA

25/2/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Global_Economy/WORLD-02-250213.html 
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Nem nesse mundo chapado, tempos de doidos varridos, Jack Nicholson algum dia imaginou que faria duplinha com a Primeira Dama dos EUA para apresentar um Óscar de Melhor Filme.[1]

Está mais para Hunter S Thompson[2] que para Academia – e nada tem de presidencial. Mas marcou – lindamente – o casamento de Washington com Hollywood. Se George Clooney casa-se com o Sudão (mas não com a Palestina), por que Jack não poderia trocar fofoquinhas com Michelle? Depois disso, virá o quê? Obama partilhando inteligência com Jessica Chastain?

O casamento que realmente conta – doravante – pode estar no coração do complexo militar-industrial-Hollywood-de segurança, como em A hora mais escura e em infindáveis variações do etos Marvel (ver “Óscar hora mais escura”,http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/02/pepe-escobar-oscar-hora-mais-escura_22.html). Mas por hora, em termos de justiça poética, nada faz mais sentido que o Óscar para Argo, dirigido por Ben Affleck (e coproduzido por Clooney).

Aqueles mais de 6.000 votantes da Academia simplesmente não puderam resistir a um roteiro só muito frouxamente apoiado em fatos, no qual uma Hollywood cheia de recursos salva a CIA. E com certificado de aprovação by Hollywood, de bônus. Assim, como se poderia prever, foi Hollywood premiando-se, ela mesma, com um Óscar, premiando o hiper nacionalismo, heróis dos EUA e, claro, a vitória dos bons (americanos) sobre os péssimos (iranianos).

E o quanto se torna monumentalmente poética essa justiça, quando um filme sobre filme falso, que engana iranianos revolucionários durante a crise dos reféns que se arrastou por 444 dias, é coroado como Melhor Filme, só dois dias antes de os EUA e outros membros do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha voltarem à mesa para discutir se o Irã os estaria enganando – e construindo uma bomba atômica.

Argo obra para provar que o Irã odeia o Satã norte-americano, mas os iranianos amam Hollywood. Três décadas depois, os iranianos não são tão facilmente engambeláveis. Conversáveis. Vão até filmar seu contra-Argo. E a absoluta maioria da população – apesar das duríssimas sanções impostas por EUA e União Europeia – apoia um programa nuclear civil. Paralelamente, será engraçado observar a performance de Argo de Karachi a Caracas.

Voltando a Hollywood: como Orson Welles ensinou, é tudo falso. Até o ex-presidente Jimmy Carter admitiu, na CNN, que tudo que se vê no roteiro de Argo foi obra dos canadenses – ajudados pelo então embaixador no Irã, Ken Taylor.[3] No Canadá, todo mundo sabe que foi trabalho dos canadenses. Obviamente, ninguém sabe de nada, nos EUA.

Pergunte a Christoph Shultz

O que realmente interessa nos Óscars é o tapete vermelho – e a frase imortal “O que você está vestindo?”. Num festival de desastres de guarda-roupa que bem valeriam uma investigação do FBI, havia pelo menos Charlize Theron em Dior, Naomi Watts em Armani Privé e Anne Hathaway em Prada para alegrar pupilas fatigadas. É o que rodará pelo mundo digital por todo o planeta – com a maioria os vencedores já esquecidos.

Não houve surpresas. Se Daniel Day-Lewis encarnando o Deus dos EUA, também conhecido por Lincoln, não levasse seu (3º) Óscar, a culpa seria de um ciberataque chinês. Na verdade, houve, sim, uma surpresa: o Zeus de Hollywood, Steven Spielberg, foi descartado, para beneficiar Ang Lee, diretor de Life of Pi. Os mais céticos imediatamente se puseram a dizer que teria a ver com Hollywood estar pivoteando-se na direção do lucrativo mercado asiático.

Quentin Tarantino disse que foi o ano dos escritores, no Óscar. Foi mesmo. Faz total sentido que seu clássico de vingança,Django liberto, tenha recebido os prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante (o mestre vienense Christoph Waltz).

Para Tarantino, só um número gigante de cadáveres pode levar-nos à Justiça. Pode-se, vez ou outra, desgostar de seus excessos. Mas fato é que a sua receita para os EUA – quando o mal está à sua frente, olho no olho, você sai e manda bala – é crível, porque seus personagens são tão esplendidamente escritos. Não surpreende que o lobby das armas e fanáticos de vários calibres da National Rifle Association estejam usando Django como material de divulgação entre os afro-americanos. Se seguissem Django (“o D é mudo”) ao pé da letra, os EUA pós-apocalipse seriam bem parecidos com essa paródia de Django Sem Freios.

A Academia pode, sim, ter-se redimido, pelo menos em parte, do caso de amor com a CIA, ao dar o prêmio de Melhor Roteiro a Tarantino, não a Tony Kushner pelo totêmico Lincoln. Afinal, Kushner – e Spielberg – construíram seu épico antiescravidão sem sequer um olhar na direção de Frederick Douglass[4] ou de Black Reconstruction in America de W E B DuBois,[5] onde se lê, bem claramente, que “foram os escravos fugidos que forçaram os donos de escravos a encarar a alternativa de render-se ao Norte ou render-se aos negros.”

Com pelo menos 200 mil negros no Exército e outros 200 mil como coadjuvantes, o norte teria perdido a guerra. Ou, no mínimo, o sul branco suprematista teria continuado como antes – escravos e tudo. Nada disso se vê em Lincoln.

O que os dois Óscars de Django provam mais uma vez é que Hollywood é doida por vingança. Mesmo que venha sob a forma de um western-spaghetti cripto-psicodélico que faria John Ford vomitar. Bem... ainda é um Oeste Selvagem. Mais selvagem que os mais selvagens sonhos selvagens de Jack Nicholson.

Tarantino talvez não seja o roteirista mais qualificado para decodificar Barack Obama, o neo-Lincoln. Que tal um western-gourmet que mostre a transição da Guerra Global ao Terror para a guerra invisível, de sombras, enquanto, no plano interno, o neo-Lincoln faz, do controle de armas misturado com drones de vigilância, meio de vida.

Ou Christoph Waltz, no papel do transviado John Brennan – confessor do então diretor da CIA, George Tenet, absolutamente bem informado e atualizado sobre “fatos e inteligência adaptados em torno da política” para justificar a guerra contra o Iraque, e, depois, definindo os parâmetros para a tortura e buscando, para eles, a aprovação do Departamento de Justiça .

Imaginem uma cena, com Waltz, e o talento que é sua marca registrada – em depoimento ante a Comissão de Inteligência do Senado –, como Brennan, no início desse mês –, dizendo que “os regimes em Teerã e Piongueangue continuam empenhados em construir armas atômicas e sistemas de transporte e disparo de mísseis balísticos intercontinentais."

Argo é para mariquinhas. O negócio agora é Obamabomber Desembestado.

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[1] Sobre a ‘aparição surpresa’ de Michelle Obama, em http://goo.gl/rJn5N


[2] Sobre ele, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Hunter_S._Thompson


[3] http://goo.gl/Jt8Cs


[4] Sobre ele, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Frederick_Douglass


[5] W. E. B. Du Bois, Black Reconstruction in America (1935). Sobre o livro, ver http://goo.gl/SG9VN

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