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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Por que o medo do casamento gay e da adoção por homossexuais?

Por Alyson Freire
http://www.cartapotiguar.com.br/2013/01/02/por-que-o-medo-do-casamento-gay-e-da-adocao-por-homossexuais/

Na véspera do Natal, período dito de compreensão e amor, o Papa mais uma vez decidiu por alimentar ódios e incompreensão. Em seu discurso à Cúria Romana, Bento XVI adotou uma retórica bélica ao se expressar em termos de luta e aliança entre religiões. E quem é este inimigo tão temido, cujo discurso beligerante e intolerante do pontífice evitou inclusive de pronunciar o nome? Este inimigo impronunciável é os homossexuais, seu estilo de vida e suas reivindicações de igualdade e reconhecimento, em particular o direito ao matrimônio e à constituição de família por meio da adoção.

A despeito do quão preconceituoso, retrógrado e sem fundamento consideremos a opinião de Bento XVI acerca do casamento gay e da homossexualidade em geral, ele tem todo o direito de emiti-la e, com ela, de advertir o seu rebanho com respeito as regras e normas da fé católica a esse propósito. O que não quer dizer que tenhamos de abaixar a cabeça ou ignorar como se fosse tão somente um assunto moral para religiosos ou católicos. Não. É um assunto político, porque envolve a luta por direitos e o combate a estigmas, injustiças e opressões que envolvem pessoas e grupos que estão muito além da igreja católica.

Mas, por que a ideia de casamento gay ou uma família formada por homossexuais assustam tanto o Papa e outros conservadores? O que eles temem para se empenharem de tal forma numa cruzada político-moral pra conter ou retardar a conquista desses direitos?

O debate acerca do casamento gay e da adoção de crianças por homossexuais colocam em questão os pressupostos morais pelos quais definimos o que é – ou deveria ser – de fato família e as relações amorosas. Portanto, não é simplesmente a homossexualidade em si que faz tremer os fundamentalistas e preconceituosos, porque muitos deles nem são assim héteros tão convictos, mas sim o que a homossexualidade, tornada pública e legítima como comportamento e identidade, realiza nas instituições e nas formas convencionais de praticar, viver e pensar a sexualidade, o desejo, o amor, o casamento, a família e a filiação.

Ora, o que incomoda não é uma relação homossexual, mas sim que esta seja compreendida e reconhecida como uma relação amorosa – afinal, assim pensa o preconceito, a homossexualidade é apenas sexo e promiscuidade, jamais amor e outros sentimentos “nobres e sublimes”. Negar o direito ao casamento significa uma tentativa de manter a homossexualidade restrita ao que seria o seu lugar legítimo: as “perversões” sexuais, o impulso irrefreável, a carne, o desejo. Seria um absurdo considerar que os casais homossexuais possam sentir mutuamente e devotar ao outro sentimentos sublimes como amor, confiança, fidelidade, cumplicidade, compreensão, estes seriam monopólios apenas dos casais héteros.

Da mesma maneira o casamento, o que inquieta não é a equivalência jurídica entre héteros e homossexuais nessa matéria civil. A indignação fundamentalista não deriva dos direitos à herança, de sustento ou os direitos patrimoniais, a que os casais homossexuais passariam a desfrutar com a parceria civil (casamento). O que irrita e atemoriza profundamente é antes o compartilhamento do reconhecimento social e da estima que uma instituição socialmente valorizada como casamento brinda as pessoas. É inconcebível para pessoas como Bento XVI partilhar com os homossexuais as benfeitorias simbólicas que somente o casamento confere . Como sabemos, na moral burguesa e cristã, o casamento é o lugar da consagração e da legitimidade das relações afetivo-sexuais, fonte de honra e realização pessoal que só possível na medida em que exclui e estigmatiza outras modalidades de relação, entre elas a própria homossexualidade.

Finalmente, a adoção ou a formação de família por homossexuais obedece a mesma lógica simbólica inferiorizadora. Por que a família é negada aos homossexuais? Porque a família, em nosso imaginário cristianizado, é um lugar sagrado, nutrido pelos valores e sentimentos mais espontâneos e gratuitos. Refúgio emocional e imaculado, cuja meta principal não é outra senão a harmonia e a proteção das crianças, estes seres angelicais e frágeis. Ser pai e ser mãe significa manter-se incorruptível e doar-se ao máximo e incondicionalmente aos filhos e à família. Pai, mãe e filho, a família encena a trindade santa, sagrada. Por isso, formar família é uma tarefa considerada sagrada e sublime. Assim, permitir tal dádiva divina a homossexuais, significa “macular” a família com pecadores, por pessoas que por seus vícios são condenadas por Deus e pela Bíblia. A isso, acrescente-se ainda todo o temor e reprovação moral acerca de uma prática que alguns padres católicos conhece bem; a pedofilia – outro dos mais estaparfúrdios preconceitos colocados na conta dos homossexuais.

Portanto, as aspirações de casamento e a adoção por homossexuais atemorizam não por conta da possibilidade real de equivalência jurídica entre héteros e homossexuais; mas sim porque essas aspirações trazem à possibilidade real de héteros e homossexuais dividirem e desfrutarem do mesmo reconhecimento social e do mesmo status de humanidade.

A ideia de casamento gay significa um aprofundamento da igualdade de humanidade, pois ela amplia o escopo do que consideramos legítimo e verdadeiro em termos de relações amorosas e formas familiares, brindando reconhecimento social e estima a um grupo de pessoas que até então permaneciam à margem, estigmatizados, inferiorizados, patologizados, ou seja, excluídos da legitimidade. É, nesse sentido, que o casamento gay, o matrimônio igualitário, é um avanço cultural e civilizatório para as nossas sociedades, pois ele representa uma ampliação inclusiva de nossas fronteiras morais. E, é exatamente essa ampliação e aprofundamento de nossas fronteiras morais, esse sacudir dos fundamentos pretensamente naturais, divinos e eternos, que incomoda e atemoriza os fundamentalistas religiosos e outros preconceituosos.

Graças a luta política e ao debate em torno dessas aspirações do movimento gay, o amor, o casamento e a família são profanados, quer dizer, levados ao terreno da mudança, da história, da escolha, da política. E isso, é um ganho de liberdade, porque somente assim a sociedade e cada um pode ser interrogado acerca do que considera legítimo e aceitável. É quando começamos a pensar sobre nós mesmos que se inicia a mudança.

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