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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Solidariedade não é para qualquer um

Anos atrás vi uma cena num show em Natal que até hoje me emociona.  Um grupo de moradores de rua estavam sentados alguns lugares à minha frente no anfiteatro da UFRN.  Entre eles, um mais debilitado e sem muitas roupas.  A solidariedade do grupo lhe deu aconchego e um agasalho.
Agora há pouco vi uma cena que me relembrou o episódio.
De frente a janela do quarto onde durmo há um supermercado.  Logo que cheguei, ouvi gritos vindos da rua.  Ali, na frente do supermercado, um casal brigava.  A mulher - esposa, namorada, não sei -, gritava e segurava as mãos do homem.  Após alguns minutos de tensão e gritos, ele a soltou e saiu pela rua, sem destino.  Ela, humilhada, sentou-se na calçada.  Chorava.
Por longos minutos, ela ficou ali chorando.  Sozinha.  Da janela, torcia para que alguém se aproximasse dela ao menos para perguntar se ela precisava de algo.  Imagino o tamanho de sua dor e vergonha diante da cena em público.  Cheguei a pensar em descer eu mesmo.
De repente eu ouvi uma voz chamando-a.  "Galega", disse um morador de rua, guardador de carros aqui nas proximidades.  Sujíssimo.  Roupas imundas, corpo que não deve ver água há meses, cabelos desgrenhados, pés descalços.  
Foi a única pessoa que conversou com a mulher.  
Solidariedade não é para qualquer um.

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