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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

A votação na ONU legitimou o status quo racista

30/11/2012, Joseph Massad, Guardian
http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/nov/30/un-vote-palestine-legitimises-racist-status-quo

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


Joseph Massad é professor associado de Política Moderna e
 História Intelectual Árabes, na Columbia University


Dia 29/11/1947, a Assembleia Geral da ONU votou e aprovou a divisão da Palestina entre os palestinos nativos e colonos judeus majoritariamente europeus. O plano de partição assegurava aos colonos (1/3 da população) 57% da terra; e aos habitantes originais (2/3 da população) 43%. Dia 30/11, os colonos iniciaram a conquista militar da Palestina, expulsando de lá centenas de milhares de palestinos. Declararam seu estado, no dia 14/5/1948. Dos 37 judeus que assinaram a "Declaração do Estabelecimento do Estado de Israel", apenas um era nascido na Palestina, o marroquino Behor Chetrit. Os palestinos rejeitaram o plano, que os expropriava de terras suas. Exércitos árabes intervieram para fazer parar a expulsão dos nativos, mas falharam e mais centenas de milhares de palestinos foram expulsos. Os colonos conquistaram o território a eles atribuído pelo plano de partição da ONU, plus metade do território que a ONU atribuíra aos palestinos.

O plano de partição estipulava que até 47% da população do estado judeu seria composta de árabes; e que a população do estado árabe teria menos de 1% de judeus. O plano insistia em que os dois estados ficavam proibidos de expulsar ou discriminar contra suas minorias. Para a ONU, "estado judeu" significava estado que pregava e defendia o nacionalismo judeu, sem discriminar contra não judeus; e a definição de estado judeu e estado árabe não permitia limpeza étnica, razão pela qual os colonos judeus a aceitaram imediatamente. Mas, desde então, os colonos e seus descendentes insistem em que, para eles, o "estado judeu" pode discriminar, mediante leis e políticas, contra, por exemplo, não judeus; e promovem limpeza étnica.

A ONU afirmou o direito dos refugiados, de retornar às próprias casas e receberem compensação pelas perdas; Israel recusa-se a cumprir o que a ONU afirmou. Depois que Israel ocupou 22% da Palestina restante, em 1967, e estabeleceu mais colônias nos territórios ocupados, mais resoluções foram aprovadas na ONU, de condenação às violações pelos israelenses, da lei internacional.

Em 1974, a ONU reconheceu a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) como única representante legítima dos palestinos; desde então, a ONU várias vezes reiterou o compromisso com as resoluções aprovadas desde 1948, e conclamou Israel a reverter as medidas ilegais implantadas por sucessivos governos israelenses.

Depois dos Acordos de Oslo de 1993, a OLP foi marginalizada, e a Autoridade Palestina (AP) foi reconhecida como representante dos palestinos da Cisjordânia e de Gaza (mas não dos palestinos habitantes de Jerusalém Leste, embora eles também votassem nas eleições em área da Autoridade Palestina). Depois de 2007, a Autoridade Palestina deixou de representar os palestinos de Gaza, que passaram a ser representados pelo Hamás eleito. O novo projeto da Autoridade Palestina passou a ser estabelecer um miniestado, em território não contínuo na Cisjordânia e sem soberania. Esse projeto logo entrou em dificuldades, porque Israel não interrompeu a colonização ilegal da Cisjordânia (e de Jerusalém Leste). Cessaram as negociações, o que deixou a Autoridade Palestina sem qualquer legitimidade ou objetivo final real que explicasse sua existência.

Ontem, a Assembleia Geral da ONU votou a favor de a Palestina ser admitida como estado observador. Por mais que alguns digam que não, a nova situação mina ainda mais o status da OLP na ONU: a OLP representava todos os palestinos; a Autoridade Palestina só representa os habitantes da Cisjordânia.

O reconhecimento também diminui geograficamente o estado palestino, que passa, dos 43% da Palestina histórica assegurados pelo plano de partição inicial, para menos de 18% do território original (e, provavelmente, para 10%, se se descontarem as anexações, colônias, áreas militares etc.); e reduziu a população palestina, de cerca de 12 milhões, para 2,4 milhões de habitantes da Cisjordânia, 40% dos quais ali vivem como refugiados.

A votação não passa, na essência, de uma atualização do plano de partição de 1947, posto que, agora, a ONU garante aos colonos judeus e seus descendentes 80-90% da Palestina, deixando o restante aos habitantes originários; e há alta probabilidade de o plano agora reconhecido pela ONU cancelar o direito de retorno dos refugiados.

Uma pequena minoria de nativos da Cisjordânia (cerca de 1,3 milhões de pessoas), pelos quais a Autoridade Palestina diz falar, ganhará da ONU status de estado-sob-ocupação; e os refugiados palestinos que vivem na Cisjordânia (1 milhão de pessoas), além dos 6 milhões de outros refugiados, correm o risco de perder o direito de retorno.

Ao reconhecer um estado palestino diminuído, o voto da ONU, de fato, abandona a interpretação original da ONU, pela qual "o estado judeu" não teria direito de discriminar e estava impedido de promover limpeza étnica contra não judeus. O novo arranjo abençoa Israel e a leitura israelense do que seja um "estado judeu" e tudo o que essa leitura implica: a saber, a atual, real e existente discriminação, por lei e por políticas; e a limpeza étnica que Israel pratica. Tudo isso passa a ser aceitável. Já quase, na prática, é tudo legal.

A evidência de que a 'atualização' tenha acontecido também num 29 de novembro – data do primeiro plano de partição – contribui para demarcar a mesma data como data de repetidas derrotas dos palestinos, que continuam a sofrer sob as leis colonialistas de Israel. A data marca a repetição, também, do crime e da culpa da ONU, que nega outra vez, aos palestinos, seus direitos humanos básicos de não serem expropriados de suas propriedades e de não serem alvo de práticas racistas.

Mas, de garantido, é que os palestinos, cuja maioria não é representada pela Autoridade Palestina, não se renderão ao novo plano de partição, como nunca se renderam ao primeiro plano. Os palestinos continuarão a resistir contra o colonialismo israelense, até derrotá-lo, e até que Israel, afinal, se converta em estado para todos os seus cidadãos, todos com direitos iguais e assegurados, independente de nacionalidade, origem étnica ou religião.

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