Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Violência em SP e o PCC: primeiras reflexões

Thadeu de Sousa Brandão
Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e professor de sociologia da UFERSA

Nos últimos meses, a mídia tupiniquim vem trazendo à baila notícia sobre uma série de atentados aos órgãos do governo constituído em São Paulo, principalmente à Polícia Militar e Civil. Os perpetradores dos atentados são, segundo a inteligência dos órgãos de segurança pública, o PCC, o Primeiro Comando da Capital.

O PCC surgiu no início dos anos 1990, dentro das prisões paulistas, como reação ao sistema medieval de encarceramento e ao massacre do Carandirú. Não é um movimento libertário ou revolucionário. Constitui-se, como seu co-irmão carioca, o CV (Comando Vermelho), em uma organização criminosa que atua dentro e fora das prisões. Seu locus de comando efetivo, porém, encontra-se dentro das cadeias em São Paulo e em mais 8 estados.

Seu principal líder, Marcos Herbas Camacho, o Marcola, é uma especie de condottieri à moda brasileira. Duro, organizador, implacável, executa um tipo de dominação que Max Weber denominaria de "ilegítima", pautada pelo medo, coação e domínio econômico dos filiados e membros da vasta organização. Juntamente com uma extensa rede de lideranças, Marcola controla o tráfico de drogas, de armas, roubos e assaltos e outras modalidades de contrabando. Uma economia de bens ilícitos, se me permitem o aprumo bourdieuniano, que gera um campo multimilhionário, gerido das prisões.

O PCC, segundo fontes otimistas, possui entre 300 e 500 mil membros. Não sabemos exatamente. O importante frisar é que a sua organização se dá em forma de redes (network). Flexibilizada, mas com pontos focais de lideranças, as chamadas torres. Toda vez que uma torre é presa ou impedida de se comunicar, o "partido do crime" perde uma teia dessa rede intrincada. Isso gera despesas e ônus novos que devem ser compensados.

Digo tudo isso apenas para mostrar um pouco do que é o PCC. Em 2002 (ano eleitoral) ele apareceu para todo o Brasil, em cadeia televisiva, na maior rebelião prisional da história. Em 2006, novo recorde (ano eleitoral de novo...) mobilizando desta vez mais de 200 mil apenados e dezenas de prisões em 6 estados. A novidade foram os ataques à prédios públicos, policiais (dezenas de mortos) e intimidação da população. Após "acordo" entre o Governo de SP e Marcola, a coisa se amainou.

O que afinal ocasionou o levante? Uma hipótese foi a criação do RDD, o Regime Disciplinar Diferenciado, que criou formas punitivas mais duras, que permitiram o isolamento das lideranças por até um ano. Isolar liderança, em uma organização em rede, é fundamental para debilitá-la. Eis o motivo da grita.

Entramos em 2012 e novos ataques (ano leitoral de novo) mostram que o PCC traz novas exigências ao estado paulista. Resta saber quais são. A estratégia do governo é a mesma: isolar as lideranças. Daí porque, trazê-los para Mossoró (Penitenciária Federal) é uma das soluções. Apenas duvido que Marcola faça parte do pacote.

As Secretarias de Segurança Pública e Penitenciária de São Paulo devem responder com dureza ao PCC. Mas, ao mesmo tempo, devem deixar claro à população quais as causas do problema e quais as estratégias de enfrentamento. Tudo isso sem desrespeitar os Humanos Direitos e protegendo seus policiais e sua população. Tarefa difícil. Cabe iniciá-la com urgência.

O PCC não é um mito. Existe, tem força e presença. Mas não é uma organização para-estatal com poderes absolutos. Deve ser pensada enquanto uma grande rede criminosa. Necessita de armas jurídicas e policiais mais avançadas, assim como tecnologia, inteligência e desburocratização para ser combatida. Sem isso, continuaremos a enxugar gelo e, a cada período eleitoral, ver repetir a ação do grupo.

Comentários

Postagens mais visitadas