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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Gonzaga: de pai para filho


Um dedo aperta a tecla de um gravador antigo. O filho entrevista o pai. Há entre ambos uma tensão crescente. E os personagens dessa história são apresentados numa linha do tempo que vai de 1920 a 1980.

O pai, Luiz Gonzaga (1912-1989), de chapéu de couro e gibão, toca sua sanfona e canta para o povo dançar na praça. O filho, Gonzaguinha (1945-1991), é rodeado pela imprensa antes de subir ao palco:
“- Por que você não grava uma música do seu pai?”

Seu rosto severo e contraído mostra a carga de emoção que essa pergunta levantou nele, que está na capa de Veja, onde se lê “Explode Coração”.
O filho lembra-se do pai dizendo:
“- Esse menino vai ter estudo. Quero ver anel de doutor no dedo.” E o internato é recordado com revolta.

No camarim, uma visita inesperada. É Elena, sua madrasta:
“- Seu pai precisa muito de você.”
“- Não vai dar”, responde o filho zangado.

Mas seus atos desmentem essa fala. Um carro adentra o sertão. Seu destino é Exu, terra onde nasceu Luiz Gonzaga. É o filho indo em direção ao pai, onde se enraíza sua identidade, que ele precisa buscar.
“- Faz muito tempo que eu não vejo meu pai... A verdade é que ele e eu nunca nos entendemos... Quem era meu pai?”

E o filme de Breno Silveira, que escreveu o roteiro com Patrícia Andrade, responde à pergunta, contando a história de um dos maiores músicos populares brasileiros, conhecido como “O Rei do Baião”, que gravou 200 discos, que venderam 30 milhões de cópias. Foi o compositor da música de “Asa Branca”, hino do Nordeste.

A escolha dos atores foi feliz. Assim, Gonzagão é interpretado por Land Vieira, o garoto que se apaixona pela filha do coronel (Cecilia Dassi), por Chambinho do Acordeon que faz Luiz Gonzaga no auge e Adélio Lima que o vive quando mais velho, distante do homem temperamental que fora no passado.

Júlio Andrade é impressionante como Gonzaguinha e Nanda Costa está linda como a mãe dele. Silvia Buarque, uma atriz delicada é a madrinha Dina que o criou com Xavier, o padrinho, amigo de Gonzagão (Luciano Quirino) no Morro de São Carlos, Rio de Janeiro.

A fotografia lírica de Adrian Teijido acrescenta beleza a tudo e as fotos de época e os trechos documentais filmados casam-se bem com o desenrolar da história. As músicas escolhidas realçam o tom de emoção de cada cena.

“Gonzaga – De Pai para Filho” dá saudades de tempos passados, de um Brasil mais ingênuo. E o reencontro de pai e filho, que sempre se amaram pelo avesso, faz chorar.

Quando estiverem saindo do cinema, fiquem um pouco mais e escutem Gilberto Gil, que escreveu a canção tema dessa bela homenagem que Breno Silveira faz a Luiz Gonzaga, na celebração dos 100 anos de seu nascimento.

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