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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

#ForaMicarla: O discurso do golpe

Imagine uma investigação criminal que dura meses a fio.  Em determinado momento, a Polícia ou o Ministério Público, que conduz a investigação, percebe que há elementos suficientes para que se convença um juiz de que é o momento de se aprofundar.  É aí que surge aquela lista de pedidos de prisão preventiva ou temporária. E numa manhã estão todos presos.
Agora imagina se fez sentido um desses investigados questionar a própria prisão porque não lhes foi dado o direito a se defender antes do pedido.
Todo mundo vai entender que a prisão faz parte do processo de investigação e, ainda que a opinião pública já condene os detidos, não se trata ainda de um julgamento ou condenação.  É uma parte da investigação.  As pessoas foram presas porque, no entender do juiz e de quem investiga, soltas podem prejudicar o andamento das próprias investigações.
Aí a gente vem para o discurso em defesa de Micarla, presente entre aqueles que dela recebem pagamento e dos seus defensores sinceros.
Foi a nota da prefeita afastada que deu o tom.  Em que pese ter sido irregularmente publicada no site da prefeitura, quando Micarla não mais era prefeita, a nota denominou a borboleta de "prefeita constitucional" e reclamou do cerceamento do direito de defesa.
O último ponto foi repetido pelo menos pelo Novo Jornal e, há pouco, por Ricardo Rosado.  E foi a partir dele que escrevi o início desse texto.  Não faz sentido falar em cerceamento do direito de defesa da prefeita uma vez que o afastamento, liminar, se deveu à compreensão de que sua saída era necessária à investigação.  Não se trata de um julgamento nem de uma condenação ainda.
O uso da expressão "prefeita constitucional"quer construir a imagem de que Micarla sofrera um golpe antidemocrático.  Vitimiza a prefeita como alvo de um golpe de estado.
Não foi à toa que o Novo Jornal fez a grande comparação do dia: Cassiano comparou, na Roda Viva, a queda de Micarla à deposição de Djalma Maranhão em 64 (pelo Golpe Militar) e de Agnelo Alves em 69 (pelo AI 5).  E lá dentro, um texto encimado pelo título "Volta ao passado sombrio".
Isso mesmo.  Micarla deu o mote e o Novo Jornal acendeu a vela: Micarla foi derrubada por um golpe de estado anti-democrático.


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