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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Natal: A estratégia da mídia micarlista para esvaziar apoio do PT

Em 2008, Fátima Bezerra era candidata à prefeitura de Natal.  Com apoio do então prefeito Carlos Eduardo, bem avaliado segundo as pesquisas de opinião, Fátima tinha uma tarefa inglória: tirar a diferença contra Micarla de Sousa (PV) que desde o início liderou as intenções de votos.
Em meados de setembro, em 2008, a grande discussão midiática girou em torno da questão: Lula vem?
Certamente Lula viria fazer campanha em prol de Fátima.  Naquele instante a boca do jacaré nas pesquisas estava se fechando.  Era praticamente inevitável que um comício com Lula representasse o impulso que Fátima precisava para, no mínimo, conduzir a eleição ao segundo turno.  Faltava uma semana, mais ou menos, para a eleição.

Mas a campanha de Micarla tinha uma estratégia de comunicação e mídia muito bem articulada.
Aliás, a discussão sobre a vinda ou não de Lula já fazia parte dessa estratégia.  A imprensa, apoiadora de primeira hora de Micarla, levantava a dúvida.
Quando a vinda de Lula era inevitável, a campanha de Micarla se reuniu com todos os jornalistas e editores bancados na folha de pagamento do comitê.  E foi discutido o que fazer de Lula.  O certo é que desenharam uma estratégia articulada.
Do lado da coligação da petista, não foi pensado nada.
Resultado: após um evento oficial em Mossoró, o presidente Lula esteve em Natal, para o comício, na sexta-feira anterior ao fim de semana da eleição.  Sua participação no programa de tevê iria ao ar somente na segunda-feira.  Foi com esse hiato que a mídia micarlista trabalhou.
Surgiu - e foi amplamente repercutida - a estória de que Lula estaria embriagado no comício.  Mais que isso: estando embriagado, ter convocado o povo a extirpar da política, dali a dois anos, o senador José Agripino (DEM) foi ressignificado como um ataque a todos os potiguares em todos os jornais da cidade.
Dúvido que Lula estivesse "alto" ou que isso fosse um problema.  O problema é que o esquema de contrapopaganda micarlista já estava a postos para esvaziar o impacto da visita de Lula.  Dias antes uma reunião, com a presença inclusive de editores de veículos impressos, definira a ação.  Aguardariam o mote do contraataque (a Ypioca) e partiriam para cima.  Toda repercussão da visita, pela imprensa, havia de ser negativa.  E Fátima só teria como explorá-la na segunda-feira.  Ou seja, quando o PT quisesse falar sobre Lula, o impacto da articulação negativa já teria esvaziado completamente o impacto.
Não deu outra.  A diferença entre Micarla e Fátima apenas cresceu após a visita de Lula e, uma semana depois, a pevista foi eleita em primeiro turno.  O resto da tragédia nós conhecemos.
Quatro anos depois, mesma articulação estratégica está em curso agora sobre o apoio do PT a Carlos Eduardo (PDT) no segundo turno das eleições em Natal.
Evidentemente que o mesmo grupo micarlista, que desta vez se reúne atrás de Hermano Morais (PMDB),  teve quatro dias para preparar e ensaiar a reação para tentar esvaziar o impacto da decisão petista.
Podemos esperar de hoje aos próximos dias manchetes no Jornal de Hoje e na Tribuna do Norte para reforçar as teses que surgiram na noite de ontem pelas redes sociais: decepção do eleitorado de mudança de Mineiro pelo posicionamento no segundo turno e a defesa da tese da neutralidade.
Depois, os dois jornais, especialmente o JH, farão matérias todos os dias tentando fazer com que o apoio do PT prejudique mais que ajude a campanha de Carlos Eduardo: o teor das matérias, que serão feitas ouvindo especialistas de diversas ordens, defenderá que PT tinha de ficar neutro e dirão que decisão é traição de Mineiro a seus eleitores.  A estratégia busca anular o apoio, favorecendo Hermano, como também esvaziar o capital político conquistado pelo deputado petista com vistas às próximas eleições, especialmente 2016, eleição para a qual Mineiro já desponta como forte candidato.  Por isso, o apoio do PT é um voto crítico e o partido já se define de que não fará parte do governo - será oposição e oposição construtiva.
O contraataque deve começar nas próximas edições do Jornal de Hoje, com notinha em Tulio Lemos ou Alex Vianna deve publicar uma matéria entrevistando alguma liderança política sobre o assunto - liderança que vai falar mal da decisão do PT.
A manutenção da articulação de mídia em torno do grupo micarlista, reunidos sob Hermano nessa eleição, já se evidenciou no primeiro turno das eleições - a estratégia do rebaixamento dos números de Mineiro nas pesquisas favorecia Hermano: garantiam o segundo turno, sem pôr em risco a ida do pemedebista à eleição do dia 28.  Mesmo assim, quase que tática virou um tiro no pé e Mineiro vai ao segundo turno.
Como que a confirmar toda a análise, surge a nota do jornalista Claudio Humberto que, além de ter sua coluna publicada pela Tribuna do Norte, será amplamente repercutida pela imprensa micarlista.  Segundo Cláudio, a presidenta Dilma Rousseff ficou irratada com a decisão do PT em Natal. Dilma defenderia a neutralidade (!), uma vez que tanto ela quanto Lula gravarão para o candidato do PMDB.
Curioso perceber que Humberto traz a ideia da neutralidade para a discussão.  A mesma tese amplamente debatida no twitter ontem à noite entre eleitores e o candidato Fernando Mineiro.  Mais curioso: a ideia da neutralidade é atribuída à presidente da república.
Evidentemente a tentativa do colunista, muito próximo aos caciques pemedebistas, é contribuir para que o voto do PT e de Mineiro em Carlos Eduardo, no segundo turno, não valham nada para a decisão do eleitorado.
A estratégia está em curso.  Cabe a nós reagirmos.  A turma do contracheque, como diz Jurandy Nobrega, fará de tudo para manter tudo como está.

P.S.: A estratégia pode ter sido demonstrada pelo simpatizante do PMDB Carlos Emerenciano.  Durante toda a semana pajiou o PT e Mineiro.  Chegou a tentar convencer que o melhor para o partido era apoiar Hermano, argumentando que o PDT de Carlos Eduardo declarou apoio a Serra em São Paulo, contra Haddad (PT).  Até que o PMDB declarou apoio a ACM Neto (DEM) em Salvador, contra Pelegrino (PT).
Quando o voto do PT foi anunciado, Emerenciano passou a defender que Mineiro e seu partido deviam ficar neutros para, logo em seguida, passar a desdenhar o apoio do deputado ao ex-prefeito.  "Confesso que estou preferindo as declarações do deputado à neutralidade", me disse pelo twitter.
Outro exemplo foi a matéria da Tribuna do Norte destacando que o vereador eleito Hugo Manso (PT) irritara-se com a divulgação do texto da resolução do partido antes que fosse aprovada.  A TN quis fazer crer que Manso fosse favorável a um apoio a Carlos Eduardo que implicasse a participação no governo - construindo um cenário de divisão e desconstruindo o sentido desejado pelo PT no apoio declarado: sem compromisso para o governo, do qual pretende manter atenta independência, segundo disse em nota.

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