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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

TVs Públicas: para quem?


Poucos debates são mais importantes do que a discussão a respeito do caráter público da comunicação e seu impacto na sociedade. Da BBC à TV Brasil, diversas instituições têm sido alvo de questionamentos acerca do conceito. Qual é o interesse a ser preservado na produção de conteúdos sob responsabilidade das emissoras públicas?
Este debate é essencial para compreender o papel de emissoras legislativas, emissoras universitárias e também da Cultura de São Paulo. A quem estas emissoras devem servir? Aos governantes, aos juízes, aos vereadores, aos deputados, aos senadores, aos funcionários públicos? Ou à sociedade? Esta pergunta ganha ainda maior relevância, quando se coloca em perspectiva o Estado e as confusões historicamente construídas entre interesse privado e interesse público.
Comunicação Pública?
É fácil elencar fatos que comprovam a apropriação de bens, estruturas e serviços estatais por grupos privados, dos mais diferentes matizes. Isto é perceptível no uso de bens públicos de forma indevida, desde carros oficiais a imóveis, escolas, hospitais. Na comunicação, tal fenômeno também é corriqueiro, o que leva muitas pessoas a confundirem Estado, com governo, partidos políticos e grupos privados.
Na fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, bem como das Rádios AM e FM homônimas, ocorreram episódios que ilustram como é possível contrariar os interesses da sociedade, às custas do dinheiro público. Após a preparação de matéria sobre os elevados preços dos pedágios em São Paulo, Gabriel Prioli, que dirigia o jornalismo da TV Cultura, deixou o cargo. Também foi demitido o jornalista Heródoto Barbeiro, ao formular uma pergunta sobre o mesmo tema a José Serra, no programa Roda Viva.
 Já o colunista econômico Luis Nassif, fora demitido por publicar críticas ao balanço financeiro da Sabesp, empresa pública dedicada ao fornecimento de água e saneamento. Curioso notar, que pouco antes das eleições presidenciais, a empresa estava investindo muito dinheiro em campanhas publicitárias na mídia nacional, mesmo sendo uma instituição que presta serviços exclusivamente ao estado de São Paulo. 
A mosca azul e a mídia
Estando no poder, dirigindo autarquia, órgão público da administração direta ou indireta, alguns indivíduos cedem à tentação de se aproveitar do que é de todos, em benefício de poucos. Na comunicação social, isto pode se tornar ainda mais perigoso: em lugar de TVs e Rádio orientadas pelo interesse da sociedade, pode dar origem órgãos de manipulação, consagrados à mentira, ferindo a transparência e a democracia.
Para evitar estes malefícios, há soluções: criar e fortalecer conselhos gestores, com ampla representação, de diversos seguimentos da sociedade; garantir financiamento, livre de pressões e ingerências, condizente com a importância e com a função dos meios de comunicação social; Dar autonomia administrativa aos gestores e segurança aos funcionários, para produzir entretenimento e jornalismo de qualidade. Entretanto, estas medidas só serão tomadas com a participação e a efetiva cobrança da sociedade, a partir do entendimento que a comunicação é um direito humano. Sem o pleno exercício da expressão, os demais direitos humanos são quase inalcançáveis.
É preciso reafirmar que as TVs legislativas não são dos legisladores, as TVs judiciárias não são dos juízes, as TVs universitárias não são de alguns professores. Pertencem à população, devendo ser norteadas pelo interesse público, conforme os princípios constitucionais do Brasil. As emissoras públicas devem ser fortalecidas e valorizadas, renovando seu compromisso a sociedade como um todo, em lugar de ceder às tentações que emanam do exercício políticos individualistas.

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