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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

#RevoltadoBusao: Estudante publica carta a seus professores de direito

Por Artur Caldas

Excelentíssimo Senhor Desembargador em Substituição Legal do Egrégio Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, ou, como o senhor prefere, Professor Artur Cortez Bonifácio e Excelentíssimo Senhor Desembargador Vigílio Fernandes de Macedo Junior, professor Virgílio, escrevo esta carta contando com a sua atenção por alguns minutos.
A juventude do nosso estado, na quarta-feira passada fez história, cansada de desmandos com a coisa pública e da mercantilização de uma atividade econômica que é antes de tudo um serviço público essencial e, como tal, tem como principal objetivo o incremento da qualidade de vida da população. O serviço em comento, qual seja, o transporte público, está longe de garantir ao usuário natalense um mínimo de conforto, o trabalhador que volta de seu labor após um dia exaustivo de esforços tem que se submeter a longas esperas nos pontos de ônibus para só então conseguir embarcar em um transporte coletivo superlotado, desconfortável e inseguro, numa longa viagem, por tantas vezes, aos bairros mais periféricos de uma cidade que, infelizmente, não destoando das tantas outras cidades brasileiras, já é estruturada de forma socialmente excludente!
Durante todo o tempo em que temos contato com o senhores, seja dentro da sala de aula ou nos corredores do setor I, pudemos olhar para além do jurista e do desembargador, percebemos o professor e a pessoa imbuída com as mais exaltantes qualidades que jamais se esperaria de um desembargador. Digo isto porque comumente temos a falsa impressão de que as pessoas que ocupam espaços de poder como os que senhores ocupam em nossa sociedade, devem necessariamente se transformarem em criaturas superiores.Os senhores, contudo, tem-se mostrado perante os seus alunos com a dignidade e simplicidade que somente alguém com tamanho senso de justiça e consciência do fardo que carregam nas costas poderiam agir.

Parecem perceber que a posição ocupada, tanto na universidade quanto no Tribunal, antes de serem próprias para a geração de status e para a inflação do ego, são posições que exigem uma grande responsabilidade.
Lembro que em uma aula de empresarial I o professor Virgílio disse que “Nilo Batista é o paradigma do Direito Penal”, assim, gostaria de lembrar uma frase proferida por este autor em “O Poder Judiciário: Independência e Democracia.”.
“É preciso, portanto, desvendar roteiros para que a única fonte constitucional do poder — a vontade popular — institua e controle o exercício desse Poder, o qual, como qualquer outro, só se legitima a partir dela.”
Ao longo de um ano em sala de aula com o professor Artur, aprendemos o valor da Constituição, as lutas que levaram à sua criação e o quão importante é que cada indivíduo tome para si o dever de guardar a Constituição Cidadã, como forma de fazer com que o Estado Democrático de Direito não quede enquanto letra morta, desprovida de qualquer sentido em nossa língua pátria.
O professor Artur nos manda ainda fichar Ferdinand Lassale, que ensina que a Constituição não pode jamais ser mera folha de papel. Diante disso, a única reação que se almeja, do senhores e de seus nobres colegas no Egrégio Tribunal, é a mesma dos tantos cidadãos e das tantas cidadãs que se lançam às ruas desta cidade esta semana com uma finalidade que nos une: a proteção da nossa Constituição, fazendo com que ela seja muito mais do que uma mera folha de papel, conforme tudo o que pudemos aprender exatamente com o senhor.
O senhor manda que fichemos Paulo Bonavides, o “Papa”, como o senhor gosta de falar, esperemos que o senhor, na posição de cardeal, faça valer o que o Papa tenta nos ensinar e o que o senhor também nos estimulou a fazer. Bonavides nos ensina que a Constituição há de ser guardada e interpretada pela sociedade. O verdadeiro guardião da Constituição é o povo, em suma, é disso que trata o método de interpretação aberto da Constituição! Meus queridos mestres! Meus queridos professores, a Constituição de 1988, pela qual os senhores com certeza nutrem tanto carinho, foi apelidada de Constituição Cidadã!!
O que esses estudantes e trabalhadores por ora pedem a esse Egrério Tribunal de Justiça é que, em um país apático diante de escândalos, satisfeito com violações a direitos fundamentais e a mercantilização desses mesmos direitos, nos seja permitido, dar um pontapé inicial a um processo de formação de uma consciência cidadã em nossa terra querida. Mais do que aprender direito, os senhores nos ensinaram a importância do fazer Direito! Do construir a cada dia, na práxis, uma sociedade cidadã e que respeite a nossa Carta Magna, a importância de tirarmos do papel as promessas do Estado Social, de materializarmos as formalidades do Estado Liberal e, de conseguinte, construirmos uma sociedade mais justa e solidária!
O senhores nos ensinaram a importância do ativismo judicial na construção dessa sociedade que tanto almejamos, não poderemos jamais falar em ativismo judicial se quando jovens estudantes, entre eles estudantes de Direito, se propõem a fazer ativismo social, eles são perversamente massacrados, se quando jovens estudantes que se propõem a mudar o mundo têm seus sonhos esmagados por cassetetes ou asfixiados pelo gás das bombas lhes são lançadas pela polícia!
Ademais, expressamos nessa carta o nosso voto de profundo carinho pelos mestre e contamos com o bom senso dos senhores para que intervenham junto a esse Tribunal pela integridade desses estudantes que vos escrevem, para garantir que o dia de hoje, que tem tudo para ser um dia histórico e de uma beleza inigualável na história do povo natalense, não se transforme em um banho de sangue, e num massacre de estudantes.

Seus alunos!
#Revolta do Busão

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