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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

#RevoltadoBusao: Bom dia, cavalo

Mais um brilhante texto de Rafael Duarte.  
E me fez lembrar o que aconteceu com uma prima de minha esposa no dia do aumento, terça-feira.  Entregou R$ 2,20 ao cobrador e tentou passar.  Foi informada de que faltavam vinte centavos.  Só então ficou sabendo do aumento da passagem.  Sabe como ela conseguiu passar a roleta?  Um moleque que estava no ônibus pedindo dinheiro ("podia estar roubando, mas estou aqui pedindo um trocado a vocês") lhe deu os vinte centavos.
Depois vem jornalista da taba dizer que os que protestam são contra a maioria da cidade.  Não, amigo.  A maioria da cidade anda de ônibus e é contra um golpe travestido de aumento dado pela prefeita, seu secretário e os empresários de ônibus.

Por Rafael Duarte
No Novo Jornal

Os cavalos da Polícia Militar são mais educados e preparados que a tropa de choque da corporação. E bem mais inteligentes e sinceros que os responsáveis pela selvageria de quarta-feira passada, durante os protestos de estudantes e trabalhadores contra o aumento da passagem de ônibus da noite para o dia. Contra a revolta popular, o remédio da polícia é a bala de borracha e o spray de pimenta. Um cavalo, não tenha dúvida, seria muito mais sensível diante da mesma situação.

O discurso do Estado é repetitivo e hipócrita: protesto pacífico pode, abusos não. Eu já não sei o que espanta mais, o discurso ou a prática. Engraçada essa democracia em que vivemos. Aumentar a passagem do transporte público sem avisar ninguém, pode. Ainda que boa parte da população dependente do serviço ande com dinheiro contado para passar a roleta e chegar ao trabalho. Abuso é dizer que não concorda. E tome bala, pimenta, porrada e camburão. Entranho esse conceito talhado na ponta do cassetete militar.

Caro comandante geral de Polícia, protesto é protesto contra o abuso de poder. Mas não espere que toda a população durma vendo a esculhambação que virou uma cidade arrasada pela incompetência administrativa de quem vendeu um produto falsificado na televisão. É desumano pedir calma enquanto se é maltratado. Existe uma lição que a polícia bem conhece: quem bate, esquece; quem apanha, jamais. O sujeito fica calado até onde aguenta, depois explode. Isso é ser humano. É natural que seja assim. Ir para o meio da rua, caro comandante geral da Polícia, é muito mais legítimo e democrático que um discurso que promete ‘combater os excessos’. Com essa mesma teoria fascista, a ditadura militar torturou e matou gente de carne e osso.

Abaixo esse lugar-comum de que a polícia existe para manter a ordem. Não, caro comandante geral. A polícia existe para proteger o cidadão. Quem mantém a ordem e organiza uma cidade são as leis. E não existe lei brasileira nenhuma que proíba qualquer cidadão, seja ele trabalhador, desempregado, estudante ou aposentado, de cobrar o que lhe é básico: respeito.

É verdade que protesto causa transtorno. É correto dizer que manifestação de rua provoca engarrafamento no trânsito. Mas ninguém é doido de sair no meio da rua sem motivo.

A luta é coletiva e necessária. Em Natal se derruba um estádio, constrói-se outro muito mais caro no lugar e ao torcedor, que é quem paga, não é dado o direito de opinar a respeito. Por aqui se promete uma inacreditável licitação para o transporte público e ao usuário, que é quem paga, não é dado o direito de dizer o que pensa sobre o assunto.

Não é de hoje que essa turma sai às ruas contra o aumento das tarifas. O detalhe é que, no fundo, a revolta maior não é nem contra o reajuste em si, mas pela forma como a coisa se dá, na surdina, na calada da noite, de forma escondida, como se o objetivo fosse mesmo sacrificar quem ganha pouco, humilhar quem depende do serviço público e ignorar, sempre, quem pensa diferente.

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