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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Ditadura Rosado: Estudante relata agressões no Facebook

Por Marcelo Lima


Estilhaços de uma bomba atingiram o meu rosto, muito próximo do meu olho direito. Tudo isso simplesmente porque estava exercendo a plena cidadania, supostamente garantida a todo brasileiro. E como se tamanha violência não bastasse, também fui preso.

 

Por volta das 20h desta quarta-feira (29) a Polícia Militar do Rio Grande do Norte iniciou um ataque contra estudantes e vários cidadãos que organizaram ato público contra o aumento da tarifa de ônibus. Na manifestação havia cerca de 1.200 pessoas (número negado pela Polícia Militar, mas que a parca experiência adquirida na cobertura jornalística de atos do tipo me permitiu aferir).

 

A Polícia Militar do Rio Grande do Norte encurralou os manifestantes na altura do Supermercado Nordestão. A força de segurança então iniciou o ataque com tiros e bombas. A única forma de defesa dos estudantes foram pedras.

Estilhaços da bomba atingiram em cheio o meu rosto, muito próximo do olho direito. Depois de uma dispersão inicial da multidão, decidi procurar os policiais para saber quem estava no comando da operação, pois a minha intenção é realizar denúncia contra o responsável pela lesão corporal sofrida.

Com a truculência policialesca comum, os militares se negaram a dizer quem estava no comando. Inclusive, a maioria deles não estava identificada. Apenas um tal de Denilson, de quem eu não verifiquei a patente. Com o modo pacífico de sempre, exige a informação e não obedeci a "ordem" de me retirar do local.

Prisão

Sem pensar duas vezes, os policiais me prenderam, justificando "desacato à autoridade". Denilson segurou-me pelo braço e trancou dentro de um camburão. Eu, um estudante, ser pacífico ao extremo, fui trancado no mesmo espaço em que o Estado brasileiro amontoa assassinos, sequestrados e estupradores. Alías, lugar pelo qual a excelentíssima Prefeita Micarla de Sousa e a comandante máxima da Polícia Militar, Rosalba Ciarlini, e tantos outros vermes políticos, deveriam passar.

Fiquei no camburão por volta das 20h20 até as 20h55, quando cheguei à delegacia de Plantão de Candelária. Na delegacia, um policial civil ouviu minha versão e também a de um dos policiais militares. Foi lavrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) que resultará em uma audiência no dia 11 de setembro. Por incrível que pareça, depois de quase ter perdido a visão, ainda vou responder em juízo o motivo do tal "desacato".

Na mesma delegacia, peguei uma guia para fazer exame de corpo de delito. Com o exame em mãos, vou realizar uma denúncia contra o comandante da operação – seja ele quem for – na Corregedoria da Polícia Militar. Também acionarei o Ministério Público, que deverá investigar os excessos da ação da Polícia Militar do RN cometidos contra as pessoas. Vale lembrar também que a Avenida Salgado Filho é jurisdição federal.

Ações policiais como a desta quarta-feira são dignas de países autoritários, onde a democracia ainda não chegou e cidadania é um vocábulo inexistente. Isso mostra também que o Estado de Direito existente no Brasil é só um discurso. É completamente inconcebível que um movimento que fale em nome de 400 mil cidadãos, que usam o transporte público diariamente em Natal, seja reprimido da forma que foi. Acorda Natal, acorda RN!

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