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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Jornalista denuncia repasse de informações no serviço funerário de São Paulo

Por Flávio Gomes
http://flaviogomes.warmup.com.br/2012/04/r-880/

Não tenho o hábito de falar da minha vida pessoal aqui, mas algumas vezes isso se faz necessário.

Perdi minha sogra na última terça-feira, vítima de aneurisma cerebral. Foram alguns dias de muita tristeza e agonia, era uma pessoa queridíssima, a quem eu adorava. Mas faz parte, todos vamos um dia etc e tal.

Acabei cuidando das questões relativas a velório e cremação do corpo, e graças à ajuda de um amigo da irmã da minha sogra, que trabalha com serviços funerários, não tive tantos problemas. Em São Paulo, a morte é monopólio do município, que se encarrega de transporte de corpos para cemitérios e crematório, este igualmente municipal. Há uma burocracia necessária, claro, e fui muito bem atendido em todas as instâncias pelos funcionários públicos que atuam numa área delicada e sensível.

Como responsável pelos trâmites, meu nome e endereço foram fornecidos ao Serviço Funerário, o que é muito natural.

Cheguei em casa agora, 23h da sexta-feira. Na caixa de correio, um telegrama, algo que me deixou intrigado. Quem ainda envia telegramas?

A vereadora Edir Sales manda. Com base eleitoral na Zona Leste da cidade, por onde raramente passo, integrante da bancada do PSD (recém-criado pelo prefeito Gilberto Kassab à base, entre outras coisas, de assinaturas falsas), partido no qual não voto e jamais votarei, a vereadora, simpática e atenciosa, escreveu: “Solidarizo-me neste momento de dor e saudade. Que Deus lhe dê forças para superar esta perda irreparável”.

Uma mensagem dessas tem pouca chance de dar errado. A não ser que eu odiasse minha sogra, claro, o que não é o caso. É evidente que estamos todos passando por momentos de dor e saudade, e que a perda é irreparável. A vereadora intuir que eu, um ateu convicto, tenha orado a Deus ou dele lembrado nos últimos dias também é aceitável. Quase todo mundo acredita em Deus, ou num deus, ou em vários, ou em um monte de coisa. Eu não acredito em muitas, exceção feita a duendes, druidas e extraterrestres, e a eles não costumo recorrer nem nos bons, nem nos maus momentos. Mas vá lá, a menção a Deus também tem pouca chance de dar errado apesar de vivermos num Estado laico.

O que deu errado, no caso da solícita vereadora Edir Sales, é que não me comovi minimamente com seu telegrama. Antes, fiquei puto e indignado. Puto porque, pela tabela dos Correios, este telegrama custou aos cofres públicos R$ 8,80. Não acho correto que o município gaste R$ 8,80 para que uma vereadora se solidarize comigo, tendo a mais absoluta certeza de que ela nunca ouviu falar da minha sogra, de mim ou de qualquer membro da minha família. E a mais absoluta convicção de que ela não faz a menor ideia de que este telegrama foi enviado, porque isso é coisa automática, algum assessor deve receber listas diárias de defuntos e ganha um salário, que eu pago, para enviar telegramas a famílias entristecidas. Pensei em telefonar para seu gabinete, não para agradecer, mas para perguntar se ela sabe quem sou eu, ou quem é minha sogra. Não o fiz porque hoje é feriado e o expediente no Palácio Anchieta já terá terminado a esta hora da noite.

Indignado, porque evidentemente eu e todo e qualquer cidadão que preenche a papelada referente à morte de um parente ou amigo passamos a fazer parte do cadastro de otários da vereadora e, muito provavelmente, do partido do prefeito. Afinal, quem mais tem acesso aos dados do Serviço Funerário Municipal a não ser a Prefeitura? E quem é que autorizou a Prefeitura a passar meus dados a um partido político? E quem é que autorizou a vereadora Edir Sales a usar meu nome e endereço para o que quer que seja?

Vereadora Edir Sales, se a senhora um dia vier a ler isso, saiba que dispenso sua atenção falsa e mentirosa. Saiba que considero um acinte a senhora usar meus dados pessoais para fingir que está preocupada com a perda irreparável na minha família. Saiba que jamais votarei na senhora. E saiba, sobretudo, que reputo um desrespeito inominável utilizar a morte da minha sogra para levar a cabo seu medíocre apostolado político.

Quanto a mim, gostaria de saber como posso fazer para devolver aos cofres do município os R$ 8,80 que a senhora gastou em meu nome

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