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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Medo e ranger de dentes no Golfo Americano

  
2/2/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online 

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


Golfo Persa? Khaleej-e-Fars? Esqueçam. O nome, agora, é Golfo Americano – para delícia dos abutres, chacais e hienas israelenses e anglo-americanos que querem guerra. E a Casa de Saud também está gostando.

Deu nisso a estratégia do Pentágono de 'mover-se' do Oriente Médio para o Leste da Ásia – como o presidente Barack Obama dos EUA anunciou recentemente. A confrontação com a China começa no sudoeste da Ásia – no Golfo Americano; e vai bem além de Washington fazer-se de torcida organizada do grupo Jundallah pró-sunitas sectários linha dura e assassinos, na província iraniana do Sistão-Baloquistão; de agentes do Mossad israelense fantasiarem-se de agentes da CIA-EUA; dos assassinatos em série de cientistas iranianos; dos vírus de computador; das acusações ridículas de que Teerã estaria ajudando a Qaeda e vice-versa.

Bomba gigante MOP[1] neles!

É hora de reexaminar as provas. Em menos de um mês, nada menos que três porta-aviões dos EUA e respectivos grupos de ataque estarão agitando as águas do Golfo Americano, do Golfo de Omã e do Mar da Arábia: USS Abraham Lincoln, USS Carl Vinson e USS Enterprise, além do velho bom Charles de Gaulle (porta-aviões nuclear francês). E mais um porta-aviões dos EUA estacionado no Pacífico também pode ser rapidamente despachado para lá.

Além dessa peregrinação naval de porta-aviões norte-americanos, o velho USS Ponce, de 40 anos, está sendo reformado e convertido em base de operações anfíbias – a ser despachado também para o Golfo Americano.

O Comando Central (Centcom) do Pentágono está reformando rapidamente o monstro orwelliano explode-bunkers de 14 toneladas, conhecido como Massive Ordinance Penetrator (MOP), capaz – teoricamente – de alcançar as instalações nucleares subterrâneas do Irã.

Um certo "Projeto de Segurança Nacional do Centro de Política Bipartidária" [orig. Bipartisan Policy Center's National Security Project] – uma das milhares de portas giratórias pelas quais, em Washington circulam deputados, senadores, políticos em geral e o pessoal do complexo militar –, quer entregar a Israel mais 200 bombas MOPs e três aeronaves KC-135 para reabastecimento em voo, para "aumentar a credibilidade de um ataque militar" contra o Irã.

A rede DEBKA-Net – front digital que distribui propaganda/desinformação a favor de Israel – absolutamente não é confiável. Mas a mais recente leva de desinformação que de lá saiu deve ser examinada com atenção. A rede DEBKA tem noticiado que o Pentágono está operando em ritmo "velozes & furiosos" em duas ilhas estratégicas: a paradisíaca Socotra, 380 quilômetros a sudeste do Iêmen (onde desde 2010 o Pentágono está construindo uma base gigante); e em Camp Justice, em Masirah, 70 quilômetros ao sul do Estreito de Ormuz, em Omã.

Socotra portanto se une a outros nódulos chaves do Império de Bases dos EUA, como Jebel Ali e al-Dahfra nos Emirados Árabes Unidos (EAU), al-Udeid no Qatar e Arifjan no Kwait. E é crucialmente importante não esquecer os 15 mil soldados extras que os EUA deslocaram para o Kuwait há apenas algumas semanas. O Pentágono, claro, mantém estrondoso silêncio sobre as bases de Socotra e Masirah; bem como iemenitas e omanitas.

DEBKA anda repetindo que, em duas semanas, cerca de 50 mil soldados dos EUA, vindos de Diego Garcia, a 3.000 km dali, serão desembarcados nessas duas ilhas – para somar-se aos mais de 50 mil soldados que já estão no Golfo Americano. Acrescentem a isso forças aéreas, navais e especiais de Grã-Bretanha e França que nunca param de chover sobre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Não é suficiente para invadir o Irã por terra – mas dá e sobra para garantir suporte logístico ao cenário de "todas as opções permanecem sobre a mesa" (copyright Obama).

Receita de guerra: ameace sem parar e reze
 

DEBKA tem distribuído material sobre esses desenvolvimentos – nenhum dos quais pôde ser confirmado por fonte independente – para dar consistência à firme disposição de Obama "para atacar as instalações nucleares iraniana, ainda em 2012", o que é perfeita sandice.

O frenesi belicista faz eco ao desejo (histérico) do governo de Benjamin Netanyahu em Israel, mas nada tem a ver com a estratégia do governo Obama, cuja meta é impor ao Irã sua 'diplomacia' de "atropelar e matar" (sanções/embargo + o Pentágono bem visível no Golfo Americano), como meio para conseguir a capitulação dos iranianos na questão nuclear.

Pensamento desejante-delirante é também a arma da hora do The New York Times, que parece já ter terceirizado o serviço de escrever sobre o Irã, entregue agora diretamente a autores israelenses, excluído o intermediário norte-americano.

Um tal de Ronen Bergman escreve que "em contato direto com altos líderes, chefes da inteligência e comandantes militares israelenses, estou convencido de que Israel, sim, atacará o Irã ainda em 2012". Gary Sick desmontou completamente essa loucurada, mostrando que "as conclusões de Bergman contradizem praticamente todas as provas que ele diz ter".[2]

A única coisa boa nessa orgia armamentista armada é que Teerã e Washington continuam em conversações – ou praticamente isso – usando os proverbiais canais alternativos: em Bagdá (os embaixadores dos dois países estão em contato); via a Turquia (o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan está servindo de intermediário); e em Vienna, nos escritórios da Agência Internacional de Energia Atômica (via diplomatas). Há uma janela de cinco meses para que prevaleça o bom-senso, até 1º/7/2012 – quando entrará em vigência o embargo do petróleo iraniano imposto por EUA/União Europeia.

E há também por aí, voltando à tona, a operação "Austere Challenge 12" [Desafio Austero 12] – os massivos jogos de guerra promovidos conjuntamente por Israel-EUA, que envolvem milhares de soldados norte-americanos, para testar alguns dos sistemas de mísseis de defesa de Israel e dos EUA.

A operação "Austere Challenge" foi remarcada para outubro, menos de um mês antes das eleições presidenciais nos EUA, quando Mitt Romney, a gangue neoconservadora e os evangélicos-doidos estarão bombardeando o Irã pelas televisões a cabo, dia e noite.

Até lá, cabe à opinião pública mundial, como Percy Bysshe Shelley escreveu em O cortejo mascarado da anarquia[3], "levantar-se em invencível número, como leões depois do sono"...  e expulsar para longe do Golfo Americano o medo e o ranger de dentes.



[1] Massive Ordinance Penetrator (MOP) [ap. "bomba massiva de penetração"] GBU-57A/B (imagem e mais detalhes em http://en.wikipedia.org/wiki/Massive_Ordnance_Penetrator) [NTs].

[3] Orig. The mask of Anarchy (escrito em 1819 e publicado em 1832). 

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