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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

O Hamás e a Fraternidade Muçulmana

9/1/2012, Ramzy Baroud, Counterpunch
http://www.counterpunch.org/2012/01/09/Hamás-and-the-muslim-brotherhood/

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Ramzy Baroud é editor de PalestineChronicle.com.
É autor de The Second Palestinian Intifada: A Chronicle of a People’s Struggle
e de My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold Story (Pluto Press, London).


Havia visível tom de triunfo nos comentários de Ismail Haniyeh, primeiro-ministro do governo eleito do Hamás em Gaza, ao ser recebido por Mohamed Badie, dirigente supremo da Fraternidade Muçulmana do Egito. Os dois anunciaram o que se deveria esperar deles, naquelas específicas circunstâncias. Haniyeh disse que a presença do Hamás, “ao lado da Fraternidade ameaça a entidade israelense”; Badie reafirmou o compromisso da Fraternidade com “as questões da liberdade, sobretudo da liberdade dos palestinos” (MENA e AP, 26/12).
É muito significativo que, em sua primeira visita internacional como primeiro-ministro, Haniyeh tenha ido ao Cairo, à sede da Fraternidade Muçulmana no distrito de Moqattam. Ali anunciou sua mensagem – resistência contra a ocupação israelense, unidade nacional entre Hamás e o Fatah e contato com países muçulmanos – e, em seguida, prosseguiu viagem pela região. Desde 2006 o Hamás busca o apoio de outros governos em países de maioria muçulmana, mas pouco conseguiu. A solidariedade muçulmana era a base da política exterior do Hamás, orientada para reduzir a dependência política e financeira dos palestinos em relação aos EUA e outros governos ocidentais. Pouco conseguiu porque, como logo se viu, o alcance da influência financeira e política dos EUA é amplo demais, para que pudesse ser abalado por movimento relativamente pequeno, como o Hamás, e lutando sozinho. Mas como o próprio Haniyeh reiterou, os tempos estão mudando.

No primeiro e no segundo turnos das eleições no Egito, o Partido Justiça e Liberdade, recentemente criado pela Fraternidade Muçulmana, obteve mais de 35% dos votos.

Esse sucesso eleitoral não foi uma anomalia, nem foi resultado inesperado. O partido islâmico Al-Nahda, que formou o primeiro governo na Tunísia depois da revolução, obteve mais de 40% dos votos nas eleições de outubro. No Marrocos, o Partido Justiça e Desenvolvimento venceu as eleições em novembro; e já se vê bem clara uma inclinação dos eleitores na direção do partido islâmico também na Líbia[1]. Veem-se marcas da influência política dos islamistas também em outros países da região. As mudanças pelas quais passa a paisagem política no mundo árabe têm levado muitos a conclusões polarizadas – e preocupantes.

O comandante-em-chefe da frente interna do exército de Israel, major-general Eyal Eisenberg, foi dos primeiros a ver nesses desenvolvimentos a transformação da ‘primavera árabe’ em “inverno islâmico radical”. Disse ele: “Temos de concluir que, num processo de longo prazo, a possibilidade de guerra total só faz aumentar” (Arutz Sheva, 5/9). Mas o que realmente preocupa Israel não é a radicalização das sociedades muçulmanas, mas o crescimento de uma política islâmica que, cada vez mais representa e manifesta discurso político claro, que fala aos eleitores. Esse crescimento preocupa Israel, porque é a via para que se construa alguma unidade no mundo árabe, com uma correspondente agenda política comum, que repõe a Palestina no centro do que, para muitos intelectuais muçulmanos, seria o “Despertar Islâmico”.

Digam o que disserem os cães de guerra israelenses, os EUA – principal sustentáculo de Israel – podem bem encontrar modos para coexistir no novo arranjo político. Outros governos ocidentais também “terão de adaptar-se a uma mudança no poder político, por mais que tenham tentado impedir que ela acontecesse”, como escreveram Roula Khalaf e Heba Saleh no Financial Times (28/12). Para Israel, essa transformação na política regional pode vir a revelar-se insuportável. Mas, evidentemente, o Partido Al-Nahda tunisiano não tira o sono de Israel: o que, sim, preocupa Israel é o Hamás.

Essa a razão, pelo menos em parte, que levou Haniyeh a aventurar-se para fora de Gaza. Porque os EUA já se movimentam para tentar controlar, se não gerir completamente, o crescimento dos partidos islâmicos, e o Hamás trabalha para assegurar posição de destaque para a Palestina – definida pelo prisma do movimento islâmico – na nova paisagem política da região.

Poucos duvidam que a vitória política do Hamás em 2006 e a resistência que o partido opôs a todas as tentativas posteriores para isolá-lo e destruí-lo influenciarão os novos partidos islâmicos em vários países árabes. Não há dúvidas de que a capacidade de sobrevivência do Hamás é bem conhecida dos novos políticos muçulmanos, no Egito e em todo o mundo. Agora, com os novos frutos que os partidos islâmicos começam a colher da revolução egípcia, o Hamás começa a mover-se com cautela, mas com firmeza. O Hamás é “um movimento jihadi da Fraternidade Muçulmana, com rosto palestino” – disse Haniyeh no Cairo.

Rápido exame das raízes da Fraternidade Muçulmana na Palestina mostra que Haniyeh não exagerou. Desde que a Sociedade da Fraternidade Muçulmana foi fundada em Ismailia, Egito, em 1928 por Hassan El-Banna e alguns outros, o grupo sempre encontrou, na causa dos palestinos, o grito de convocação e a palavra de ordem em torno dos quais reunir os muçulmanos de toda a região. O primeiro elo entre a Fraternidade e a Palestina formou-se em 1935, quando Abdel-Rahman El-Banna (irmão do fundador) visitou a Palestina e reuniu-se com o mufti de Jerusalém, Haj Amin Al-Husseini.

A Fraternidade tornou-se visível na revolta de 1936, ao levar a mensagem palestina, com tom islâmico, a todo o mundo árabe. A causa da Palestina rapidamente se converteu em principal missão e palavra-de-ordem da Fraternidade, e o próprio Hassan El-Banna chefiou o então recém fundado Comitê Geral Central de Ajuda à Palestina.

Mais que isso. Em abril de 1948, quando vários governos árabes demoravam para alistar-se na defesa da Palestina, a Fraternidade Muçulmana organizou três batalhões de voluntários. As estimativas do número de voluntários da Fraternidade Muçulmana na Palestina durante a guerra e a Nakba variam, mas o próprio Hassan El-Banna observou, em março de 1948, que cerca de 1.500 voluntários do movimento combatiam na Palestina.

O relacionamento entre a Irmandade Muçulmana e a Palestina teve altos e baixos, mas os laços jamais se romperam completamente. Mesmo antes de o Hamás ser oficialmente criado em 1987, o movimento operou sob várias classificações, sempre diretamente conectado à Fraternidade Muçulmana do Egito.

O recente encontro no Cairo entre Haniyeh e Badie deve ser entendido nesse contexto histórico, uma reunião triunfante e, possivelmente, para declarada coordenação. É um meio para rejuvenescer mais uma vez a conexão com a Fraternidade na Palestina e para assegurar ao Hamás maior apoio político, depois de anos de isolamento e apesar do atual tumulto político na região.

Evidentemente, o Hamás enfrenta muitos desafios. Dentre eles, o principal é hoje a violenta escalada de Israel em Gaza e a correspondente pressão sempre forte dos EUA. Mesmo assim, espera-se que a visão e a mensagem política do Hamás continuarão a promover o equilíbrio entre a excepcionalidade da questão palestina e uma inserção forte no contexto árabe e muçulmano.

Ao aventurar-se para fora de Gaza, Haniyeh espera expandir o diâmetro do movimento islâmico palestino na direção do Egito e além do Egito, construindo o que o Hamás já declarou uma vez como seu objetivo: dar “profundidade estratégica” à causa palestina. Não conseguiram em 2006. 2012 é ano novo.

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[1] Ver 9/1/2012, “2012: Eleições na Líbia”, Franklin Lamb, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/01/eleicoes-na-libia-2012.html

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