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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Mais jogos de sombra no Golfo Persa

8/1/2012, M K Bhadrakumar, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2012/01/08/more-shadow-playiin-persian-
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


A visita do ministro de Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoglu ao Irã parece não ter ido muito bem. A retórica ficou por conta da Turquia – e a imprensa oficial do Irã sutilmente ironizou (“ ‘Os laços entre Irã e Turquia alcançam o ponto mais alto em 400 anos’: Ministro turco”[1]). Fato é que a Turquia não tem como manter relações complicadas com quase todos os seus vizinhos – com Irã, Síria, Iraque, Armênia, Chipre, Israel. E também com França e União Europeia os contatos são espinhosos.

Teerã não vê com bons olhos as operações turcas de subversão clandestina na Síria, nem a interferência dos turcos no Iraque, nem o ‘eixo’ que a Turquia constituiu com Arábia Saudita e Qatar. Mais importante, a Turquia está admitindo que os EUA instalem seu sistema de mísseis antibalísticos em território turco, sistema cujo único objetivo é monitorar, para Israel, os mísseis iranianos.

Por tudo isso, a declaração de Davutoglu, de que a Turquia estaria fazendo funções de mediação na questão nuclear iraniana, não passa, se se o diz claramente, de vento. O ministro de Relações Exteriores do Irã Ali Akbar Salehi usou seu tato persa para enunciar, exclusivamente como ‘opinião pessoal’, que o Irã não tem problemas com Istambul para uma rodada de negociações.

As negociações sobre a questão nuclear serão duras, sobretudo sob a sombra da ameaça, pela União Europeia, de suspender os negócios com petróleo iraniano. O Irã trabalhará sob a desconfiança de que o ocidente usará as conversações para finalidades de propaganda. Trita Parsi, que conhece excepcionalmente bem o tema, que estudou por dentro (e como conselheiro do governo dos EUA), publicou artigo muito certeiro no Independent[2], sobre o duplifalar dos EUA e países ocidentais.  

Além do mais, o Irã também alimentará profundas desconfianças quanto à propaganda do salvamento, pela marinha dos EUA, de marinheiros iranianos ameaçados por piratas somalianos. A mídia iraniana deu pouco destaque ao evento[3]; a mídia ocidental superinflou-o. O Irã tem longa e sólida experiência com as armadilhas no front da propaganda. A propaganda EUA-Israel trabalhará muito para apresentar o Irã como irracional e impenetrável aos atos ‘amigáveis’ do ocidente.

As atenções voltam-se agora para a visita que o presidente Mahmoud Ahmedinejad fará a cinco países da América Latina, em movimento de publicidade. Há um aspecto diplomático também[4], porque a viagem mostrará que o Irã absolutamente não está isolado, nem no próprio ‘campo’ dos EUA. As declarações de Ahmedinejad serão acompanhadas de perto, em suas andanças pela Venezuela, Nicarágua, Equador e Cuba; e como convidado de honra na cerimônia de posse do presidente (de esquerda) recentemente eleito na Guatemala.

É modo de responder a Obama, que iniciou sua presidência com uma rápida passagem pela América Latina. Simultaneamente, Teerã toma precauções em relação aos planos de guerra de EUA e Israel. O que mais importa, do ponto de vista de Teerã, são ações reais em campo. Por exemplo, o deslocamento dos britânicos será tratado com máxima atenção[5], dado o longo currículo de Londres na linha de identificar-se com a opinião dos falcões do lobby israelense em Washington, e a disposição da Grã-Bretanha para, em algum momento, tentar ‘acertar as contas’ com o Irã, depois do recente rompimento de laços diplomáticos.

O Irã não está baixando a guarda. Os Guardas Revolucionários Islâmicos iniciaram exercício de manobras militares na região leste do país, na fronteira com o Afeganistão. A mensagem é clara[6] – ‘mais de 100 mil soldados estão estacionados como patos-alvos em suas bases afegãs e podem ser as primeiras vítimas de qualquer ataque de EUA-Israel contra o Irã’. E no sábado o Irã anunciou a intenção de promover outro grande exercício de manobras navais no Estreito de Hormuz.

Bem claramente, se a estratégia de EUA-Israel visava a ‘baixar a crista’ de Teerã, não está funcionando. No sábado, o Irã anunciou que deixa o dólar norte-americano nas futuras negociações com a Rússia, que passarão a ser feitas nas moedas nacionais[7]. O Irã começa a ver com novos olhos a proposta russa para a questão nuclear. Claro que, se a unidade do grupo 5+1 é minada, é vantagem para o Irã.

A Rússia criou espaço diplomático[8] para que o Irã negocie mediante sua proposta flexível, que virtualmente mina a ‘estrada das sanções’ pela qual está andando, até aqui, o Conselho de Segurança da ONU. A Rússia já começou a pedir o fim das sanções da ONU contra o Irã.

Tudo isso já se reflete no modo confiante como o Irã está recebendo a equipe de inspetores da IAEA que estão, nesse momento, visitando o Irã. O Irã expôs suo moto[9] suas capacidades locais, em tom de quem, como Parsi relata em seu artigo2, esteve realmente disposto a aceitar acordo com os EUA, nos termos da troca negociada entre Brasil-Turquia-Irã. E Teerã prometeu anunciar mais “boas novas”[10] de capacidade nuclear “nas próximas semanas”.

A notícia que o Kremlin divulgou, da conversa por telefone entre os presidentes Dmitry Medvedev e Ahmedinejad chama a atenção para o considerável nível de entendimento sobre várias questões regionais[11]. A imprensa russa vê íntima correlação entre a pressão ocidental sobre a Síria e o Irã, partes da mesma estratégia para controlar Oriente Médio, com efeitos diretos sobre os interesses russos. Interessante: a Rússia está fazendo novos deslocamentos navais na Síria[12] – o que sinaliza apoio ao presidente Bashar al-Assad.

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[1] Em http://www.irna.ir/ENNewsShow.aspx?NID=30753440

[2] 9/1/2012, “Discursos levianos sobre guerras fazem da guerra ao Irã risco real”, em português em http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/01/discursos-levianos-sobre-guerras-fazem.html

[3] Em http://www.irna.ir/ENNewsShow.aspx?NID=30753403

[4] Em http://www.csmonitor.com/layout/set/print/content/view/print/446452

[5] Em http://edition.cnn.com/2012/01/06/world/meast/iran-drills/index.html

[6] Em http://news.xinhuanet.com/english/world/2012-01/08/c_122551719.htm

[7] Em http://www.bloomberg.com/news/print/2012-01-07/iran-russia-replace-dollar-with-rial-ruble-in-trade-fars-says.html

[8] Em http://tehrantimes.com/politics/94321-iran-mulling-over-russias-revised-step-by-step-plan-envoy-

[9] Em http://english.farsnews.com/newstext.php?nn=9010170203

[10] Em http://english.farsnews.com/newstext.php?nn=9010170195

[11] Em http://eng.news.kremlin.ru/news/3302

[12] Em http://news.xinhuanet.com/english/world/2012-01/07/c_131347964.htm

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