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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

EUA: Liberdade e justiça só para alguns

16/12/2011, Harpers, Gleen Greenwald, “With Liberty and Justice for Some: Six Questions for Glenn Greenwald”
(entrevista a Scott Horton, excerto) – http://harpers.org/archive/2011/12/hbc-90008356
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


 

Harpers: (3) Nos governos Bush e Obama, os ‘vazadores’ de informação foram demitidos, perseguidos e até processados, nos termos de leis como a Lei Antiespionagem [ing. Espionage Act] com rigor antes jamais visto, sobretudo quando o que descobrem e divulgam sugere que agentes do Estado e do governo cometeram crimes graves. Esse zelo persecutório é movido pelos mesmos fatores que criam imunidades para as elites?

Gleen Greenwald: Sem dúvida alguma. Considere o caso dos crimes de escuta clandestina na Agência de Segurança Nacional, caso claro de crime cometido nos anos Bush. A coisa toda foi crime tão claro e evidente para todos, que dois jornalistas, James Risen e Eric Lichtblau, ganharam o Prêmio Pulitzer, pelo trabalho de expor tudo no New York Times[1]. Funcionários do governo foram apanhados em ações idênticas às que a lei tipifica como crime: instalar escutas clandestinas sem autorização de um juiz. Para cada crime cometido, naquele caso, a lei prevê pena de prisão de cinco anos e/ou multa de $10 mil dólares.


Mas nenhum dos agentes do governo Bush foi sequer investigado, imagine se alguém chegou a ser processado. As gigantes das telecomunicações nos EUA, que também cometeram crimes, especificamente, de cooperação entre empresas e governo em escutas ilegais, passaram até, depois, a ser protegidas: foram ‘imunizadas’, por lei aprovada no Congresso.

Ninguém jamais foi condenado no escândalo das escutas clandestinas na Agência de Segurança Nacional, exceto uma pessoa: Thomas Tamm, advogado do Departamento de Justiça, funcionário de nível médio, que descobriu as escutas ilegais e, num gesto de consciência, telefonou a Lichtblau [jornalista do New York Times] e contou o que descobrira. Nenhum dos criminosos foi investigado, mas Tamm, sim, foi investigado, perseguido, demitido, obrigado a contratar advogados para defender-se, gastou tudo o que tinha, foi reduzido à miséria e passou por grave crise de depressão. A única pessoa punida no escândalo das escutas clandestinas na Agência de Segurança Nacional, nos anos Bush, foi quem descobriu e denunciou os crimes.

É o que se vê sempre. E a guerra de Obama contra WikiLeaks e Brad Manning é exatamente isso. O único ato que o Departamento de Justiça de Obama tem interesse em punir é o ato de expor os crimes da elite governante, não os atos dos que praticam aqueles crimes. WikiLeaks e Brad Manning são ‘pré-condenados’ por denunciar crimes da elite.

Harpers: (4) Em discurso que fez recentemente, em Osawatomie, Kansas, o presidente Obama usou o conceito de “Novo Nacionalismo” de Theodore Roosevelt[2], como apoio retórico. Você acha que o pensamento de Roosevelt, de uma nação dedicada à “democracia real”, é adequado para uma nação que, hoje, padece sob o triunfalismo das elites? E você acha que Obama, num segundo mandato, dará qualquer passo significativo para enfrentar os problemas que você discute em seu livro – sobretudo as questões de transparência?

Gleen Greenwald: Vários dos temas sobre os quais Obama falou em Kansas são válidos e apropriados, mas nada disso faz qualquer diferença. Obama está em campanha eleitoral, e o que ele já mostrou, convincentemente, é que o que diz em seus magníficos discursos nada tem a ver com suas ações de governo.

Absolutamente nada, zero, faz supor que Obama mudará de curso, nesses assuntos, no segundo mandato. Sempre haverá outra eleição à frente, argumento que candidatos e apoiadores sempre usam para justificar o que não façam ou façam mal feito (o de sempre: é vitalmente importante que os Democratas vençam as eleições de meio de mandato em... 2014!). Obama não manifestou qualquer tipo de interesse em acusar formalmente, processar e julgar as elites. E não só as elites políticas: tampouco manifesta qualquer tipo de interesse em acusar, processar e julgar formalmente as elites das finanças.

De fato, é até menos provável que se decida a julgar as elites políticas e das finanças no segundo, que no primeiro mandato. Em novembro de 2008, o New York Times já explicou por que os presidentes são incentivados a acobertar e impedir que antecessores sejam processados: “Porque todos os presidentes, mais dia menos dia deixam a presidência, os altos executivos do mundo político e das finanças sempre são incentivados a nada investigar de mandatos anteriores.”[3] Em outras palavras, ao ajudar a acobertar os atos dos que vieram antes dele, Obama libera-se, ele também, para agir em total impunidade. Por isso, todas as elites – políticas, financeiras, a imprensa – são sempre motivadas a defender e a preservar essa ‘licença’ para cometer crimes, que protege as próprias elites, uma mesma classe” [Continua, no original].


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[1] 16/12/2005, New York Times, em http://www.nytimes.com/2005/12/16/politics/16program.html?scp=1&sq=James%20Risen%20nsa%20surveillance&st=cse

[2] 7/12/2011, íntegra do discurso, em http://www.guardian.co.uk/world/2011/dec/07/full-text-barack-obama-speech (em inglês)

[3] 13/11/2008, Charlie Savage, New York Times, in http://www.nytimes.com/2008/11/13/washington/13inquire.html?_r=1&partner=rss&emc=rss&oref=slogin

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