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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Sócrates deixa o jogo terrano

Ele tinha um filho chamado Fidel.  Pouco tempo atrás, a Caros Amigos havia perguntando ao Magrão se ele era de esquerda em uma entrevista.  Sócrates destacou que nem era de esquerda nem de direita: era comunista.  
E brasileiro.  Muito.  Até no nome.  Sócrates Brasileiro figura de destaque na luta contra a Ditadura Militar.  Fez da Democracia Corinthiana seu espaço de luta contra o regime.  Decidiu ir para fora do país quando a emenda das Diretas Já foi derrubada no Congresso.
Sócrates foi vencido hoje. Corpo fragilizado na luta contra o alcoolismo foi vencido por uma infecção intestinal - que virou septcemia.
Republico, em sua homenagem, texto do companheiro Rogério Tomaz Júnior abaixo.


Foi nesta madrugada. No silêncio da noite. A crônica doença que tirou do jogo terreno o nosso Doutor Sócrates foi irônica no seu desfecho.

O Magrão partiu sem despertar muita atenção. O triste anúncio foi dado quando a maioria ainda estava nos braços de Morfeu, o deus grego dos sonhos.


O nosso Sócrates, no campo, era discreto. Comemorava quieto seus gols, numa espécie de antítese da energia que despertava o momento supremo do futebol.
Fora de campo, fazia jus ao nome. Era hábil com as palavras e ideias. Em campo, estava mais para um general, estrategista afiado na elaboração do plano de jogo e frio na sua execução.

Assim como no esporte, jamais se escondia na vida e expressava muito nitidamente suas posições. Na política, entretanto, jogava na esquerda, enquanto nos gramados militava mais pela meia direita avançada.

Certamente deixará muitas saudades entre quem teve o prazer de conhecê-lo e desfrutar da sua companhia. E deixará também um vazio entre os que não puderam realizar esse desejo, entre os quais me incluo.

Segue a vida. Segue o jogo. E o Doutor Sócrates entra para a nossa galeria de estrelas que tanto brilharam na Terra e agora cintilam em algum lugar no universo.

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Na madrugada do dia em que o Corinthians pode conquistar o seu quinto título do Campeonato Brasileiro, a torcida do Timão fica de luto.





Nenhuma alegria hoje, após a última rodada do Brasileirão 2011, superará a tristeza pela passagem do Doutor Sócrates.



Não faz muito tempo, cheguei a pedir – por e-mail – uma entrevista a ele, para o meu livro sobre o Eduardo Galeano. Não obtive resposta, mas gente que o conhecia me disse que o Doutor não era muito organizado com as correspondências eletrônicas. Iria tentar novo contato mais à frente. Agora é tarde.



O escritor uruguaio, mestre no futebol jogado com as mãos, com a escrita, não falou muito sobre o Magrão. No clássico “Futebol ao sol e à sombra”, três breves citações. Uma no texto que reproduzo abaixo, que o lista entre alguns dos maiores artistas do esporte mais popular do planeta.

Chifre em cabeça de cavalo

Alain Giresse formou, junto com Platini, Tigana e Genghini, o mais espetacular meio de campo do Mundial de 82 e de toda a história do futebol francês. Na tela da televisão, Giresse era tão pequenino que sempre parecia estar longe.

O húngaro Puskas era atarracado e gordo, como o alemão Seeler. O holandês Cruyff e o italiano Gianni Rivera eram jogadores de físico frágil. Pelé tinha pé chato, como Nestor Rossi, o sólido meio de campo argentino. O brasileiro Rivelino tinha o pior rendimento no teste de Cooper, mas no campo não havia quem o capturasse, e seu compatriota Sócrates tinha corpo de garça, altas pernas magérrimas e pés pequenos que se cansavam fácil, mas era um mestre do calcanhar, e se dava ao luxo de cobrar pênaltis com ele.

Enganam-se redondamente os que acreditam que as medidas físicas e os índices de velocidade e de força determinam a eficácia de um jogador de futebol, como se enganam redondamente os que crêem que os testes de inteligência têm algo a ver com o talento ou que existe alguma relação entre o tamanho do pênis e o prazer sexual. Os bons jogadores de futebol podem não ser titãs talhados por Michelangelo. No futebol, a habilidade é mais determinante que as condições atléticas, e em muitos casos a habilidade consiste na arte de transformar as limitações em virtudes.

O colombiano Carlos Valderrama tem os pés tortos, e essa arcada serve para ele esconder melhor a bola. O mesmo acontecia com as pernas tortas de Garrincha. Onde está a bola? Na orelha? Dentro da chuteira? Para onde foi? O uruguaio Cococho Álvarez, que andava mancando, tinha um pé apontando para o outro, e foi um dos poucos beques que pode controlar Pelé sem atingi-lo.

Foram dois baixinhos meio gordinhos, Romário e Maradona, as estrelas do Mundial de 94. E têm essa mesma estatura dois atacantes uruguaios que triunfaram na Itália nos últimos anos, Ruben Sosa e Carlos Aguilera.

Graças a seu minúsculo tamanho, o brasileiro Leônidas, o inglês Kevin Keegan, o irlandês George Best e o dinamarquês Allan Simonsen, chamado de Pulga, conseguiam escorregar através de defesas impenetráveis e se safavam facilmente dos zagueiros grandões, que tentavam tudo mas não conseguiam detêlos.

Também foi pequeno, mas blindado, Félix Loustau, o ponta esquerda da
Máquina do River Plate, e era chamado de Ventilador, porque era ele que dava um respiro ao resto do time fazendo-se perseguir pelos adversários. Os homens de Liliput podem mudar de ritmo e acelerar bruscamente, sem que se derrube o alto edifício do corpo.

[Eduardo Galeano, "Futebol ao sol e à sombra"]

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