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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Pepe Escobar: “Epidemia grave de iranofobia nuclear”

9/11/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
A bad case of nuclear Iranophobia
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


No auge de um frenesi de “vazamentos” na imprensa-empresa ocidental que chegou – literalmente – à histeria nuclear, os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica [ing. International Atomic Energy Agency (IAEA)] afinal divulgaram relatório no qual, essencialmente, dizem que Teerã, ainda no final do ano passado, tentava projetar uma bomba atômica que se adaptasse a uma ogiva de míssil.

Segundo o relatório, o Irã trabalhou “no desenvolvimento de projeto próprio de uma arma nuclear incluindo teste de componentes”.

Além da acusação de ter-se esforçado para redesenhar e miniaturizar uma arma nuclear paquistanesa, Teerã também é acusada de tentar montar operação clandestina para enriquecer urânio – o “projeto sal verde” [ing. green salt project] – que poderia ser usado “em programa clandestino de enriquecimento”.

Tudo isso levou a IAEA a expressar “sérias preocupações” sobre pesquisa e desenvolvimento “específicos para armas nucleares”.

O relatório vende a ideia de que, enquanto a IAEA tentava, ao longo de anos, monitorar os estoques iranianos declarados de minério de urânio e de urânio processado – hoje, 73,7 kg de urânio enriquecido a 20% em Natanz, mais 4.922 kg de urânio enriquecido a menos de 5% – Teerã, em segredo, tentava construir uma bomba atômica. 

Inteligência fraca

A IAEA repete insistentes vezes que se baseia em inteligência “confiável” – mais de mil páginas de documentação – de mais de dez países, e que se ampara em oito anos de “provas”.

Mas a IAEA não tem meios independentes para confirmar a enorme massa de informação – e desinformação – que recebe mensalmente, a maior parte, das potências ocidentais. Mohammad El Baradei – que antecedeu o japonês Yukya Amano na presidência da Agência Internacional de Energia Atômica – disse isso várias vezes, claramente. E sempre contestou o que o que aparecia como “inteligência iraniana” – porque sempre soube que era informação extremamente “politizada”, atravessada por ondas de boatos e especulação.

Nenhuma surpresa, portanto, que o jornal iraniano Kayhan, ultraconservador, tenha perguntado se se trataria mesmo de relatório da IAEA, ou não passava dediktat ordenado pelos norte-americanos a um Amano fraco, facilmente pressionado.

O relatório nada traz que pudesse, nem de longe, abalar o mundo – só imagens de satélites e especulação de “diplomatas”, apresentadas ao mundo como se fossem “inteligência” irrefutável. Se parece etapa da construção da guerra contra o Irã, é porque é isso, exatamente. Não passa de regurgitação de farsa já velha, de quatro anos passados, conhecida então como “o laptop da morte”. [1]

Cenário mais próximo da realidade – ainda que se acredite que haja um programa nuclear secreto no Irã, o que nunca foi provado – sugere fortemente que seria contraproducente, para Teerã, construir bomba atômica ou ogiva nuclear.

E, seja como for, o Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] – que comanda todos os programas militares de alto nível – continua a ter a opção de construir, rápidos como raio, uma ogiva nuclear, a ser usada como arma de contenção no caso de terem absoluta certeza de que os EUA invadirão o Irã, ou lançarão alguma modalidade expandida da “Operação Choque e Pavor”. O indiscutível verdadeiro efeito de o Irã vir eventualmente a ter sua bomba atômica será acabar, de uma vez por todas, com a eterna ameaça de o país ser alvo de ataque americano. Quem tenha dúvidas sobre essa questão consulte, por favor, o dossiê Coreia do Norte.

O regime de Teerã pode ser impiedoso, mas eles não são amadores; construir uma bomba nuclear – secretamente ou à vista da IAEA – e mandar tudo pelos ares não os levará a lugar algum. Em termos geopolíticos, o regime – que já está às voltas com complexa e terrível disputa interna entre o Supremo Líder Ali Khamenei e o grupo do presidente Mahmud Ahmadinejad – ficaria completamente isolado.

A população iraniana já vive preocupada demais com inflação, desemprego, corrupção e o desejo de participar mais na vida política do país, para ser jogada no centro de uma disputa nuclear global. Há amplo consenso no Irã a favor do programa nuclear civil. Mas nada sugere que sequer alguma minoria aprovaria uma “bomba islâmica”.

Israel está blefando 

O que arrepia os nervos não só de Israel, mas também dos poderosos interesses norte-americanos que, 32 anos depois, ainda não se conformaram com o fim do seu sentinela preferido na região (o Xá do Irã), é que o Irã os mantém em eterno suspense.

Muito previsivelmente, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em Israel continuará a latir latidos ensurdecedores, ao mesmo tempo em que tenta todos os disfarces possíveis para trair os norte-americanos para sua armadilha.

O mesmo Netanyahu que nem Barack Obama nem Nicolas Sarkozy aguentam mais, é homem de estratégia obsessiva: obrigar Washington e alguns outros poucos, dos britânicos à Casa de Saud – o que nada tem a ver com alguma “comunidade internacional” – a aplicar pressão máxima contra Teerã. Ou Israel atacará.

É perfeito absurdo, porque Israel não pode atacar nem cachorrinho de madame. Todo o armamento crucial para Israel é norte-americano. E depende de autorização para cruzar o espaço aéreo iraquiano ou saudita. Nada faz sem luz verde de Washington, de A a Z. Pode-se acusar o governo Obama de várias coisas, não de terem tendências ao suicídio.

Só aquelas não-entidades no Congresso dos EUA – desprezadas pela ampla maioria dos norte-americanos, segundo todas as pesquisas – poderiam ainda acreditar nas marciais ordens de marcha avante que recebem de Netanyahu, via o poderoso lobby do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee).

Resta afinal, só, então, o caminho de mais e mais sanções. Quatro rodadas de duras sanções do Conselho de Segurança da ONU já atingem as importações e os setores bancário e financeiro do Irã. Mas é só. Fim da linha.

O relatório da IAEA não convenceu a Rússia, como os russos já disseram claramente; tampouco impressionou a China. A IAEA, simplesmente, não encontrou prova alguma que realmente a autorizasse a acusar o Irã de manter programa ativo para construir bombas atômicas.

Assim sendo, esqueçam a possibilidade de Rússia e China aceitarem mais uma rodada de sanções que os EUA imponham na ONU, e que poderia ser, essa sim, literalmente, nuclear: boicote de facto, que paralise as vendas de gás e petróleo do Irã.

Só alguma trupe de palhaços assumiria que a China votaria contra os interesses de sua própria segurança nacional no Conselho de Segurança da ONU. O Irã é o terceiro maior fornecedor de petróleo para a China, depois de Arábia Saudita e Angola. A China importa cerca de 650 mil barris de petróleo por dia, do Irã – 50% a mais, em comparação ao ano passado. É mais de 25% do total das exportações de petróleo do Irã.

O próprio governo Obama já teve de admitir publicamente que um boicote é inimaginável: tiraria da economia global já deprimida nada menos que 2,4 milhões de barris de petróleo por dia. O barril chegaria a $300, $400.

Teerã tem – e continuará a encontrá-los – meios para contornar as sanções financeiras. A Índia pagou o que tinha a pagar ao Irã, nos negócios de importação, através de um banco turco. E Teerã também já está usando um banco russo.

O que também prova que o mantra de Israel, segundo o qual a “comunidade internacional” teria isolado o Irã não passa de monumental blefe. Atores chaves, como os BRICS - Rússia, China e Índia - mantêm relações comerciais muito próximas com o Irã.

E, sobretudo: em pleno surto de histeria iranofóbica, a Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] – China, Rússia e os quatro “-...stões” da Ásia Central – iniciou sua reunião de cúpula em São Petersburgo. O Irã lá está – como observador – representado pelo ministro de Relações Exteriores Ali Akbar Salehi. Mais dia, menos dia, o Irã será admitido como membro pleno.

Se, ainda antes de o Irã tornar-se membro da Organização de Cooperação de Xangai, China e Rússia já veem qualquer ataque contra o Irã como ataque contra esses próprios países (além de ataque, também, contra a ideia da integração de toda a energia da Ásia), será realmente muito interessante observar o que Israel fará, tentando convencer os EUA a atacarem... a Ásia! 




Nota dos tradutores
[1] 11/12/2007: “Trata-se ainda do que se conhece como “o laptop da morte” – um computador portátil obtido, em meados de 2004 de uma fonte “não conhecida”, que supostamente o teria recebido no Irã, de outra pessoa não identificada, e que no qual estavam armazenados planos “volumosos” para a construção de um míssil no qual estaria instalada uma ogiva nuclear. Autoridades norte-americanas usaram esse computador para convencer os europeus de que a “ameaça iraniana” seria real e gravíssima: o computador foi elemento crucial do clima de pânico no qual surgiu o alarmante relatório National Intelligence Estimate 2005. A verdade é que esse inestimável tesouro no qual a inteligência dos EUA teria tropeçado por acaso vai-se tornando cada dia menos inestimável e menos tesouro. Dafna Linzer noticia, no Washington Post, que “o computador foi roubado de um iraniano preso pela inteligência alemã, quando tentava, sem sucesso, recrutá-lo como informante. E foi contrabandeado para fora do país por outro iraniano, que o entregou a espiões na Turquia, como prova da existência de um programa nuclear” (“Iran, nukes and the laptop of death”, Justin Raimondo)Ver também, “Laptop of Death”: Revising the NIE on Iran – IPS news - 8/12/2007.

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