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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

O último golpe da propaganda israelense contra o Irã

8/11/2011, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2011/11/08/israel-spinning-its-last-spin-on-iran/
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Israel começou a perder o domínio estratégico que teve no Oriente Médio, quando encontrou pela frente o Hezbollah, que o desafiou na guerra do Líbano, em 2006. Mas continua como mestra incontestável da propaganda global. O ponto alto dessa performance parece ter sido o famoso ousadíssimo ataque, por pilotos israelenses, contra uma instalação nuclear secreta da Síria, em 2007[1].

2007 foi a culminância da propaganda israelense. Leiam o relatório, na página do governo holandês. Ou no blog do Washington Post. O que teria provocado aquela magnífica onda de divulgação e propaganda, há quatro anos? Evidentemente, para encobrir a derrota que o Hezbollah aplicou-lhe, Israel planejou a operação militar e a operação de propaganda, que, acreditavam os israelenses, lhes devolveriam a imagem de antes, de marcianos descidos no Oriente Médio. Não é em tudo semelhante ao que vemos hoje? Não estamos assistindo ao replay daquele raro momento de gênio para a autopromoção e a propaganda –, que Israel está forçando ao máximo, para atacar o Irã?

Tenho quatro motivos pelos quais chamo de propaganda a propaganda israelense.

(1) Os líderes israelenses com certeza sabem o mesmo que sabe o ex-chefe do Mossad, Ephraim Halevy, que repetiu várias vezes, semana passada, que o programa nuclear iraniano não representa, de fato, ameaça existencial a Israel.

(2) Os líderes israelenses entendem a política. Entendem que na Europa e nos EUA, os líderes foram colhidos no redemoinho da crise econômica e mal conseguem manter-se à tona. Sabem bem que Israel não tem capacidade para combater sozinhos, em guerra para a qual não contem com total apoio dos EUA; e que os EUA, por sua vez, não têm fôlego para envolver-se hoje em mais uma guerra – menos ainda se for guerra no Oriente Médio que faça subir o preço do petróleo. (Evidentemente, a primeira reação do Irã será fechar o Estreito de Hormuz, por onde passa 1/3 do petróleo que o mundo consome.)

(3) Os três mais altos comandantes das forças armadas de Israel e os chefes do Mossad e do Shin Bet já se manifestaram contra um ataque ao Irã. Os líderes israelenses sabem bem porque todos esses se opõem tão firmemente à guerra contra o Irã. Sabem que o Hezbollah fará chover dezenas de milhares de foguetes sobre todas as cidades pequenas e grandes e sobre todas as colônias de israelenses, o que provocará número colossal de mortes entre os civis. Digam o que disserem, políticos como Benjamin Netanyahu e Ehud Barak sabem que efeito essa tragédia terrível teria sobre suas bem-sucedidas carreiras eleitorais. E, por fim,

(4) os israelenses são mentes brilhantes e com certeza, antes de iniciar um ataque contra o Irã, não deixariam de perguntar a pergunta fundamental: Qual o objetivo do ataque? Destruir o programa nuclear do Irã? Mas, para tanto, Israel teria, antes, de saber exatamente onde se localizam as instalações nucleares do Irã – informação que, hoje, Israel não tem. Em resumo, a liderança israelense estaria pondo em risco a vida de centenas de milhares de israelenses inocentes, numa guerra sem objetivo claro. E de fato, no final da história, o Irã que emergisse depois do ataque israelense, sem dúvida construiria sua bomba atômica, a qual, essa, sim, seria ameaça existencial contra Israel por, no mínimo, alguns milênios.

Assim sendo, por que essa onda de propaganda israelense que está enlouquecendo o planeta?

Vejo três fatores em operação. (1) As políticas regionais de Israel chegaram a um beco sem saída. E o iminente reconhecimento da Palestina pela Assembleia Geral da ONU é pílula amarga demais para engolir. Agora, o anel de isolamento regional que cerca Israel fechou-se. (2) Os movimentos sociais de protesto em Israel estão ganhando ímpeto. A política econômica de Israel carece desesperadamente de reformas; mas o governo foi apanhado de calças curtas e não tem dinheiro.

O governo israelense precisa muito de alguma coisa que distraia a atenção da população, afastando-a das questões 1 e 2, acima. O espectro da guerra contra o Irã é o derradeiro golpe de propaganda ao qual os políticos israelenses estão recorrendo, em desespero, para mobilizar a nação.

E (3) não poderia haver melhor momento para “apertar” Barack Obama. Evidentemente, Netanyahu sabe o quanto Obama é supremamente “apertável” – desde que Obama foi forçado a recuar do que disse no famoso discurso do Cairo, em 2009. Com Obama começando sua campanha eleitoral para a reeleição, Netanyahu o vê como vulnerável a chantagem – e chantagem é jogo em que Israel é mestra. A experiência mostra que sempre que a pressão aumenta no Oriente Médio, os EUA instintivamente soltam os cordões do dinheiro para Israel. Obama está à beira de fazer isso.

A parte engraçada é que não há nenhum sinal de que o Irã tenha, de fato, trabalhado muito para sua dramática aparição como potência regional. Não é autor da coreografia da Primavera Árabe, nem nada teve a ver com os EUA invadirem o Afeganistão e o Iraque. Praticamente tudo aconteceu naturalmente – resultado das tolices dos EUA e das políticas israelenses.

A primeira implicação disso tudo é que os israelenses não são infalíveis e invencíveis. Não são, mas não acho que os líderes israelenses sejam idiotas. Precisam, isso sim, desesperadamente, dos efeitos de uma onda de propaganda espetacular – como em 2007 – que mostre Israel como nação potente e valorosa, contra um Irã covarde e fraco. Para que a coisa funcionasse, Israel teve de pressupor que o Irã atacado permaneceria encolhido e não retaliaria. O problema é que o Irã não está cooperando. Estaremos assistindo à última onda de propaganda de Israel?





[1] “Operação Pomar” [ing. Operation Orchard], 6/9/2007. Sobre a operação, ver http://www.bibliotecapleyades.net/sociopolitica/sociopol_middleeast12.htm(em inglês) [NTs].

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