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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

O que ensinamos a nossos filhos

Dia desses fui ouvir o novo hit da Internet, esta versão de O pintinho piu, no Youtube.  Um dos vídeos recomendados pelo Youtube após a exibição desta versão feita no município cearense de Russas é um pout-pourri de Patati Patatá.
Nunca tinha visto esse pout-pourri e não conhecia algumas dessas canções.  Uma das canções que eu nunca tinha ouvido era a Jacaré foi à cidade:

Jacaré foi à cidade
Mas não tinha o que comprar

Comprou uma cadeira velha 
Pra comadre se sentar
A comadre se sentou
A cadeira esborrachou
Jacaré ficou chorando 
O dinheiro que gastou

Ontem, no aniversário de Alice, ela ganhou um CD do grande Hélio Ziskind (Trem maluco e outras cantigas de roda).  Ali, uma outra versão desta canção me chamou atenção e me fez pensar:



Macaco foi à feira
Não tinha o que comprar
Comprou uma cadeira
Pra comadre se sentar
A comadre se sentou
A cadeira esborrachou
Tadinha da comadre
Foi parar no corredor


Para além da mudança do animal protagonista (jacaré ou macaco, não importam muito), algumas mudanças de comportamento.
A compra do jacaré tem, desde o início, uma pitada de gosto duvidoso e pouca solidariedade.  O jacaré compra uma cadeira velha mesmo sem ter o que comprar.  Gastou pouco nessa compra, mas quando a cadeira quebrou, sem nenhuma solidariedade com a comadre - que poderia ter se machucado -, o jacaré chora o dinheiro jogado fora.  O olhar do jacaré conduz a criança a pensar em quanto perdeu - foi a cadeira que comprou que se quebrou.  E o bem-estar da comadre?  Que se esborrache!
Na versão de Hélio Ziskind, a preocupação do macaco é outra - apenas possibilitar o descanso da comadre.  Cadeira não era velha e, quebrada, a comadre foi parar no corredor.  Tadinha da comadre!  O olhar do macaco conduz o olhar da criança a se preocupar com quem se feriu.  A queda foi feia.
Fiquei pensando no que nos dispomos a ensinar nossos filhos: dinheiro ou solidariedade?  Compro uma cadeira para uma pessoa necessitada de descanso utilizar e me preocupo com seu acidente?  Ou compro uma cadeira velha - para economizar ou, quem sabe, até fazer troça -, e choro o dinheiro jogado fora?
Eu me importo com o bem-estar do outro ou em quanto dinheiro eu ganhei ou perdi nessa história?  O que temos ensinado a nossos filhos?
Isso me fez lembrar do episódio que relatei aqui, ocorrido com uma amiga no show do Cocoricó que, a propósito, tinha direção musical de Hélio Ziskind.  O tema era tolerância.  Mas qual o ensino que um pai dá a sua filha, ao desrespeitar uma mulher sozinha, com uma criança pequena e grávida?  Não adiantariam os ensinos da turma do Júlio sobre tolerância se o exemplo vivo diante de seus olhos é de um homem que não respeita  mulher alguma.  E ele estava com sua filha no teatro vendo um espetáculo sobre tolerância!
Tenho a impressão que esse pai prefere ensinar a versão do Patati Patatá a sua filha.

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