Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Grécia: O último Venizélos




6/11/2011, Ayman-El-Caimã, Blog Coups de Dent, n. 147
http://kayman-coupsdedent.blogspot.com/2011/11/n137-grece-le-dernier-venizelos.html
(também em http://resister-art35.blogspot.com/2011/11/grece-le-dernier-venizelos.html)

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
O gordo Evangélos Venizélos[1], eterno rival de Georges Papandréou no seio dessa entidade ectoplásmica chamada Movimento Socialista Pan-Helênico [gr. PASOK] (partido ‘socialista’ grego, tapem o nariz), vê afinal chegar sua hora: o fracasso ejetará o primeiro-ministro do engraçadíssimo governo que brotará da Batalha da Grécia, que se trava em Atenas, mas, principalmente, em Paris, Berlim e Cannes.
Desde que Papandréou teve o incrível topete de anunciar um referendo sobre o “acordo de desendividamento” (?) armado pela dupla Merkozy escondida sob a máscara da eurozona, a dupla mais infernal da história moderna da Europa – Angie e Nikô – estão fazendo o diabo, ameaçando o socialista grego com as piores represálias, se se mantiver empacado em seu projeto de consultar o povo grego. Não se atrevam – ouviram-se os gritos no Eliseu e no Bundeskanzlei. Que ideia é essa de consultar os gregos? Os gregos são idiotas demais para compreender uma linha, que seja, de alta finança!
Nosso bom Geórgios imediatamente curvou-se ante os patrões, esqueceu o referendo, essa quimera, e prepara-se para fazer reverência de cabeça no chão. Sempre lhe restará a chance de escrever as próprias memórias: Memórias de uma Nulidade. A piada que circula em Atenas é que Venizélos será presidente e Papandréou… ministro da Economia.

Evangélos não é o primeiro Venizélos a arrastar a Grécia até a beira do abismo. O Venizélos que o precedeu, de nome (que belo nome!) Elefthérios (“livre”), mostra a cara nas moedas de 50 lepta (50 centavos de euro, em grego) e foi responsável pela catástrofe de Sangarios em setembro de 1921, quando a armada grega foi esmagada pela armada turca às margens do rio Sangarios, que os turcos rebatizaram como Sakarya, ao final dos três anos da guerra greco-turca. A derrota dos gregos abriria as portas de Smirna à cavalaria turca que regozijou-se numa bela carnificina de gregos. Os sobreviventes fugiram a nado e foram recolhidos por navios de guerra franceses.

Elefthérios Venizélos, até então herói nacional grego – começou sua epopéia pela libertação de Creta e entrou para a história oficial como o “fundador da Grécia moderna” – entrou, depois da derrota de Sangarios, na segunda parte de sua aventurosa biografia, dessa vez grande imbecil temporizador, com tendências golpistas. Terminou a vida miseravelmente, no exílio em Paris, em 1936.

A Grécia de 2011 está em situação que lembra aquela, de 1921: quebrada

O segundo Venizélos é personagem muito mais dedicado à trapaça que o primeiro. Novos tempos, novas práticas (Άλλοι καιροί άλλα έθιμα : ali keri ala etima)… Esse apparatchik modelo do PSOK, ocupou, entre 1993 e 2011, nada menos que oito diferentes ministérios. Fez de tudo: ministro da Cultura, da Defesa, da Justiça, da Imprensa etc. Teria alguma ideia sobre o que fazer para salvar a Grécia da máquina de moer eurozônica? Não, que alguém tenha percebido. A única coisa que não falta ao segundo Venizélos é apetite de poder. Perfeito necrófago.
Cabe ao povo grego desmentir o ditado: “se há dois, haverá três”. Os gregos não têm de esperar um terceiro Venizélos, personagem providencial que, sem que ninguém entenda como, retomaria as rédeas da carroça desgovernada em que se tornou a Grécia, antes que despenque, de vez, no abismo.
Os gregos têm de retomar o comando do próprio destino, como sempre souberam fazer nas horas mais sombrias de sua história e reencontrar o espírito verdadeiramente libertário dos klephtes, os "bandidos" irredentistas e os guerrilheiros da revolução de 1830. E dos kapétanioi, os guerrilheiros que resistiram à ocupação italiana, alemã e depois britânica, de 1942 a 1948. E dos estudantes insurgentes do dia 17 de novembro de 1973 na Escola Politécnica. Contarão com a ativa simpatia dos povos da Europa e do Mediterrâneo, inclusos os caimãs.

Ελευθερία ή θάνατος! (Eléfthéria i thanatos), Liberdade ou morte!

[assina] Ayman-El-Caimã [Αυμάν Ελ Καυμαν]
Voluntário das Novas Brigadas Internacionais para a Libertação da Grécia, NBILG

Seja como for, boa semana a todos! Que a Força do espírito esteja com vocês!
...e até a semana que vem.

++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
[1] Atual vice-primeiro ministro e Ministro da Economia da Grécia, desde 17/6/2011. É deputado pelo Movimento Socialista Pan-Helênico [gr. PSOK] e professor de Direito Constitucional na Universidade Aristóteles, de Tessalonica.

Comentários

Postagens mais visitadas