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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

O veto de Chico Buarque

Da Folha de São Paulo






Ia ser bonita a festa, pá. Mas não há acordo entre a voz do dono e o dono da voz, e por ora o destino de um livro de entrevistas com Chico Buarque é a gaveta.
Em maio de 2010, o editor da Azougue, Sérgio Cohn, propôs a Chico e Eric Nepomuceno um volume da coleção Encontros.
A série reúne livros de conversas com artistas e intelectuais. Lá estão o escritor Jorge Luis Borges e parceiros de Chico, como Vinicius de Moraes e Gilberto Gil.
Após a assinatura dos contratos com a Marola, escritório que cuida dos interesses de Chico, Nepomuceno, tijolo por tijolo, fez a pesquisa e mostrou ao amigo. Foi surpreendido pela negativa: Chico não queria mais que o livro saísse. Nepomuceno comunicou a decisão ao editor.
Qual o quê. De posse dos contratos, Cohn prosseguiu o trabalho. Embora não fosse obrigado, pelo acordo firmado, a submeter as provas finais ao entrevistado, enviou o material à Marola em setembro deste ano, pedindo o OK.
Márcia Leitão, secretária de Chico, afirmou que o contrato autorizava a impressão do livro: "Se tem o contrato assinado é tocar para frente". Em outra ocasião, escreveu: "Ele está se preparando para show e está muito ocupado. Libera para a gráfica". 
O editor deu a Nepomuceno a "excelente notícia". O organizador disse achar "estranho" e falou em "mal-entendido". Ao final, foi taxativo: Chico "efetivamente não quer o livro. Portanto, não temos livro. Lamento".
Então veio o que, no entender do editor, é um "veto dissimulado": "Solicito que seja mantida a vontade do Chico e que o livro não seja editado", escreveu Márcia. 
Para seu assessor de imprensa, Chico "não está vetando nada". "Se quiser, ele [Cohn] que publique", afirmou à Folha. Cohn diz que "o que a editora tem em mãos é o veto. Chico que mande explicitamente a autorização".



Assessor diz que Chico achou livro 'deprimente'

Questionado sobre o desacordo entre a editora Azougue e Chico Buarque quanto à publicação de livro com suas entrevistas, o assessor de imprensa de Chico, Mario Canivello, disse que o compositor "não está vetando nada".
"Se Chico não tivesse de fato autorizado a publicação, teria sido apenas quebra de contrato. Querer forçar a barra para parecer veto é, no mínimo, má-fé." Para o assessor de imprensa, ao falar em veto, o editor da Azougue busca apenas publicidade. 
Organizador do livro e amigo de Chico há "mais de quatro décadas", Nepomuceno diz o caso não é de veto, mas de uma "desistência".
"Ou esse livro é feito com a concordância dos dois envolvidos, ou é feito de uma forma que me pareceria truculenta. É um direito do Chico, meu e de qualquer autor desistir de um projeto."
Na opinião de Nepomuceno, "a assessoria de imprensa do Chico tem razão: se o editor quiser fazer valer o contrato, faz valer e pronto. Eu ficaria profundamente incomodado, porque a relação com o Sérgio Cohn [dono da editora] sempre foi cordial". 
Ele diz que, se Chico "desistir da desistência", o livro sairá pela Azougue.
Para Sérgio Cohn, a editora teve sua reputação "sujada": criou expectativa ao anunciar o lançamento e alterou sua programação para focar no projeto. "Agora, ficaremos como mentirosos", escreveu a Márcia Leitão. "Esperava mais respeito."
O editor crê que Chico não quer assumir o ônus do veto.
Mas quais seriam as razões para Chico não querer o livro? 
Mario Canivello disse à Folha que Chico achou o livro "deprimente", "muito ruim", "desnecessário" e que o material já estaria disponível no site de Chico Buarque. 
Segundo ele, o compositor avalia que as entrevistas selecionadas estão "descontextualizadas" e que não faria sentido publicá-las agora, já que foram concedidas "no momento da ditadura".
Das dez entrevistas da edição, cinco são da época do regime militar.

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