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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Tempo de cidadania

Aloysio Nunes Ferreira (PSDB)
Walter Pinheiro (PT)
Na Folha de São Paulo


A famosa frase do juiz Louis Brandeis, "o melhor detergente é a luz do sol", merece um adendo: a luz do sol, a transparência não é apenas um poderoso detergente contra ilícitos na administração pública; ela é também o oxigênio imprescindível à democracia. 

Com efeito,a transparência a próxima o Estado da sociedade civil, permite o controle cidadão das políticas, confere legitimidade aos atos do governo e fundamenta, em última instância, o exercício do poder por parte dos representantes do povo. 
Entretanto, a transparência só pode ser efetivamente exercida se ao cidadão é assegurado o direito à informação. E o direito à informação só existe, de fato, quando estão disponibilizados à cidadania mecanismos acessíveis para a obtenção de documentos públicos. 
Por isso, há algumas décadas, as principais democracias do mundo vêm implantando legislações para garantir e facilitar o acesso de seus cidadãos à informação. Nessas localidades, a regra geral é a divulgação ampla e facilitada das informações. 
O sigilo é exceção temporária, bem justificada e sujeita a revisão periódica. Em tais países, a transparência não é apenas passiva; é também ativa. O direito do cidadão à informação tem por contrapartida o dever do Estado de fornecê-la. 
Pois bem: no Brasil, já temos projeto de lei que, em consonância com tal tendência mundial, dita regras liberalizantes, mas equilibradas, para garantir o direito à informação previsto na Constituição Federal. 
Trata-se do Projeto de Lei da Câmara nº 41, de 2010, atualmente em tramitação no Senado. OPLC 41 determina a divulgação das informações desclassificadas pela internet, a revisão ativa do sigilo de documentos, a criação da Comissão Mista de Reavaliação de Informações, órgão composto por representantes dos três Poderes, para decidir sobre a classificação de documentos, e o acesso facilitado do cidadão comum às informações. 
Ademais, o PLC 41 acaba com o injustificável sigilo eterno de documentos, tal como já aconteceu nos EUA, e impede que, em processos relativos aos direitos humanos, o sigilo possa servir de desculpa para a negação de informações. 
Apesar disso, o senador Fernando Collor de Mello apresentou substitutivo com objeções a pontos fundamentais do PLC 41. Entre várias outras alterações, o substitutivo desobriga o poder público de colocar as informações na internet e reintroduz o sigilo eterno de documentos. 
Além disso, permite-se a denegação de informações sigilosas a processos sobre direitos fundamentais. 
O senador Collor alega que o PLC 41 provocará imenso WikiLeaks oficial, o qual comprometerá a soberania nacional. Isso não faz sentido, já que o PLC 41 prevê somente a divulgação de informações cujo sigilo já tenha sido devidamente revogado. 
Gostaríamos de lembrar que o sigilo injustificado não promove soberania. A obsessão pelo sigilo não impediu que ditaduras da América Latina, do Leste Europeu e do mundo árabe ruíssem como castelos de cartas. A única soberania estável é a soberania democrática. O Wikileaks, apesar de embaraçoso, não fará ruir democracias. 
Para justificar as prorrogações ad infinitum do sigilo, o senador Collor afirma, à la Hegel, que "o tempo do Estado não é o mesmo dos homens particulares". É verdade. 
Mas, numa democracia, o tempo do Estado tem de estar submetido ao tempo da cidadania. Pois bem, é tempo de cidadania no Brasil. 
É hora de aprovar o PLC 41 e contribuir para aperfeiçoar e oxigenar a jovem democracia brasileira. 

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