Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Por falar em Mia Couto, E se Obama Fosse Africano?

Da Gazeta do Povo

O escritor moçambicano Mia Couto conta, na coletânea de textos E Se Obama Fosse Africano?, como foi incumbido, na década de 1980, de compor, junto com outros artistas, um novo hino nacional e um novo hino para o Partido Frelimo, grupo político marxista-leninista que governou seu país natal a partir da independência conquistada de Portugal, em 1975. Com o mesmo senso de dever cívico e honradez com que Couto tomou a tarefa de produzir a expressão artística que representaria sua pátria, o escritor representa intelectualmente neste livro não apenas o povo de Moçambique, mas por vezes todo o continente africano.

Não é por acaso nem à revelia da comunidade intelectual que o autor assume esse papel: dotado de um estilo literário peculiar, com uma prosa poética embebida nos neologismos de Guimarães Rosa, o escritor e biólogo conquistou prêmios literários suficientes para ser um dos mais reconhecidos autores africanos vivos – e talvez o mais representativo da língua portuguesa. Dessa forma, o que vemos em E Se Obama Fosse Africano? é um Mia Couto menos poético e mais politizado, porta-voz de um continente que há mais de um século tenta fazer parte do planeta e cujo maior obstáculo é o preconceito que tem contra si próprio. “Infelizmente olhamo-nos mais como consumidores do que como produtores. A ideia de que a África pode produzir arte, ciência e pensamento é estranha mesmo para muitos africanos”, declara em seu discurso “Os Sete Sapatos Sujos”, referindo-se a sete costumes que o continente precisa abandonar para crescer.

A desilusão com que o escritor pinta sua África é tocante. Extasiado pela vitória do presidente americano Barack Obama em 2008, Couto publicou o ensaio que dá nome ao livro no jornal moçambicano Savana, onde escreveu os percalços que o estadista símbolo da esperança mundial enfrentaria no continente. Governos rivais que alterariam a Constituição para permanecer mais tempo no poder, agressões físicas e mesmo uma possível elegibilidade negada por uma elite branca e aristocrata, entre outros obstáculos, terminariam por enterrar o Obama africano junto com sua pretensa gana de mudar a realidade. “Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: (...) é lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia”.

É espantoso observar como a realidade brasileira não está nada distante da africana, e talvez por isso a leitura de E Se Obama Fosse Africano? faça mais sentido para nós do que gostaríamos. Problemas em comum, como a corrupção, o culto das aparências e a impunidade, entre outros, atrasam duas terras separadas por um Oceano Atlântico.

A proximidade com o Brasil, porém, não é apenas negativa. Em dois dos ensaios, lidos em eventos brasileiros, Mia Couto destrincha sua paixão por Guimarães Rosa e fala do amor e da identificação por parte dos africanos pela literatura de Jorge Amado. “O Brasil – tão cheio de África, tão cheio da nossa língua e da nossa religiosidade – nos entregava essa margem que nos faltava para sermos rio”, declara o escritor sobre a revelação do país que a obra do autor baiano proporcionava. Resta a nós ver nos discursos de Mia Couto e na cultura africana a outra margem do rio.

Comentários

Postagens mais visitadas