Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Polícia que mata: A farsa da ROTA


Por Celso Lungaretti

Os últimos dias estão mostrando a verdadeira face da Rota - Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar.

Neste sábado (03/09), o noticiáriorevela um laudo do Instituto Médico Legal demolindo de vez a versão da Rota, de que teria ocorrido uma bizarra tentativa de atentado ao seu quartel em agosto/2010: o IML atesta que o presumido autor foi alvejado pelas costas e não baleado em tiroteio frontal, conforme alegado.

Isto, mais o fato de que não foi apresentado o suposto  coquetel molotov  e nem mesmo se encontraram fósforos ou isqueiro com o defunto, fez o próprio secretário da Segurança Pública de SP, Antonio Ferreira Pinto, admitir a possibilidade de a sede da tropa não ter sofrido atentado nenhum.

Na época havia integrantes da Rota sendo investigados em casos de corrupção e homicídios. Daí terem aumentado agora as suspeitas de que tudo não haja passado de uma cortina de fumaça para desviar a atenção da imprensa e da sociedade.

A semana já começara com a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, cobrando a retirada dos aberrantes elogios à ditadura dos generais, mantidos até agora no site da Rota (que está abrigado no portal do Governo de São Paulo).

Ela se queixou, especificamente, de que a unidade mais truculenta da Polícia Militar de São Paulo "se orgulha de ter participado da deposição de um presidente eleito" e dos "massacres promovidos pela violência de Estado".

Como o assunto mereceu destaque no jornal O Globo (RJ), a PM prometeu, em nota à imprensa, alterar sua página virtual.

O parto da montanha, entretanto, foi um rato: a correção se limitou à retirada da frase na qual o 1º Batalhão de Polícia de Choque Tobias Aguiar (do qual a Rota é força tática de policiamento motorizado) relacionava, dentre suas "campanhas de Guerra" através dos tempos, a "Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, apoiando a sociedade e as Forças Armadas, dando início ao regime militar com o Presidente Castelo Branco".

Não havia mesmo como sustentar, em pleno estado de Direito, a afirmação de que, ao ajudar a golpear as instituições, estaria "apoiando a sociedade".

Os historiadores, contudo, terão algo a dizer sobre dois outros episódios dos quais a Polícia de Choque paulista jamais deveria ufanar-se:
  • sua contribuição ao massacre dos pobres famélicos de Canudos; e 
  • à repressão do heróico levante dos 18 do forte de Copacabana (justificada com uma afirmação estapafúrdia, a de que estaria "defendendo as fronteiras do Estado contra as invasões vindas do Paraná"!).
Pior ainda é a permanência da retórica outrora utilizada pela ditadura militar para validar as prisões ilegais, torturas, estupros, execuções e sequestro dos restos mortais daqueles que confrontavam o arbítrio instaurado pelo golpe de 1964. Vide estes trechos:
"Sufocado o foco da guerrilha rural no Vale do Ribeira, com a participação ativa do então denominado Primeiro Batalhão Policial Militar 'TOBIAS DE AGUIAR', os remanescentes e seguidores, desde 1969, de 'Lamarca' e 'Mariguela' continuam a implantar o pânico, a intranqüilidade e a insegurança na Capital e Grande São Paulo. Ataques a quartéis e sentinelas, assassinatos de civis e militares, seqüestros, roubos a bancos e ações terroristas. Estava implantado o terror". 
"Mais uma vez dentro da história, o Primeiro Batalhão Policial Militar 'TOBIAS DE AGUIAR', sob o comando do Ten Cel SALVADOR D’AQUINO, é chamado a dar seqüência no seu passado heróico, desta vez no combate à Guerrilha Urbana que atormentava o povo paulista".
Quem, em condição de extrema desigualdade de forças, resistia a uma bestial tirania, não era nem de longe responsável pelo "pânico, intranquilidade e insegurança".

A ótica civilizada, expressa inclusive nas diretrizes da ONU, é exatamente a oposta: os verdadeiros culpados pelo festival de horrores que marca os regimes de exceção são os que quebram a normalidade democrática, não os que tentam libertar o país do despotismo.

E as ações armadas de movimentos de resistência -- desde as dos partisans que enfrentavam o nazifascismo na Europa até a de seus congêneres dos  anos de chumbo  na América Latina -- não se caracterizavam como terroristas, salvo na propaganda enganosa das próprias ditaduras, formulada por seus serviços de guerra psicológica. O terrorismo de Estado, sim, estava indiscutivelmente tipificado.

Enfim, a PM não retirou da página virtual da Rota as lôas aos "massacres promovidos pela violência de Estado", numa óbvia afronta à ministra Maria do Rosário; e, na verdade, descumpriu a promessa feita para sair da saia justa em que a colocou o jornal O Globo.

Atitude igualmente evasiva a corporação adotou em 2009, quando um seu porta-voz prometeu ao Brasil de Fato revisar o site, mas acabou não sendo mudada uma palavra sequer.

PASSADO SOMBRIO

A brutal execução de três jovens inocentes de classe média por parte dos carrascos da Rota 66, em 1975, fez com que a opinião pública se desse conta da existência de grupos de extermínio legalizados a, eles sim, aterrorizarem a população dos bairros pobres de São Paulo.

O excelente livro Rota 66, do jornalista Caco Barcellos, documentou 4.200 casos de assassinatos cometidos pela Rota nas décadas de 1970 e 1980, tendo como vítimas, quase sempre, jovens pobres, pardos e negros (muitas vezes sem antecedentes criminais). Os inocentes atingidos por engano seriam em maior número do que os verdadeiros criminosos - cuja condição, claro, não eximia os policiais do dever de entregá-los à Justiça, ao invés de simplesmente abatê-los, como faziam.

.
Tudo é revoltante nos relatos de Barcellos: a impunidade dos criminosos que, nas raras vezes em que alguém ousava denunciá-los, eram julgados pelos próprios colegas de corporação; as arbitrariedades de toda ordem, como alterações nos cenários dos crimes, destruição dos documentos das vítimas, aceitação de depoimentos contraditórios e até ameaças aos profissionais íntegros que tentassem não envolver-se nessas farsas
; a impotência das famílias que, sem recursos para custear advogados e exigir justiça, acabavam se conformando com a execução covarde de seus entes queridos...

Endeusada pelos jornais popularescos e sanguinários, a Rota era a menina dos olhos de Paulo Maluf, que lhe deu total liberdade de ação quando governador e depois, em suas campanhas políticas, sempre prometeu colocá-la na rua.

Os excessos cometidos pela Rota eram tão frequentes e chocantes que o jornal Folha de S. Paulo chegou a exigir, em editorial (06/02/1983), que o governo estadual desativasse a Rota, dando fim à sua "legenda sanguinária":
- O método de operação consagrado pela Rota e imitado, nos últimos tempos, por outras unidades da PM não é apenas essencialmente ilegal, porque baseado na detenção de "suspeitos" identificados por uma nebulosa intuição policial; não é só atentatório aos direitos humanos, porque conduz frequentemente à eliminação sumária desses "suspeitos" ou à extração de confissões mediante sevícias; é também intrinsecamente incapaz de conter a escalada da criminalidade, mas ao contrário a alimenta com doses de violência cada vez mais desatinada

Comentários

Postagens mais visitadas