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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

As coisas que aprendi nos discos - Homem Primata

Tornei-me evangélico em uma comunidade muito conservadora - já falei isso aqui.
Uma das características desse conservadorismo era sua incapacidade de autocrítica.  Aliás, essa questão era profundamente polêmica porque a liderança da igreja não se permitia ser criticada, especialmente por quem "fosse do mundo".   A crítica dos ateus, dos que viam a religião sob sua perspectiva discursiva e a posicionavam em seu lugar ideológico.  A religião um ópio, um aparelho ideológico do Estado.
Quando voltei do seminário me utilizando de músicas "do mundo" para substanciar minhas reflexões, especialmente aquelas que criticavam a nossa fé "verdadeira"- que seria o mesmo que inquestionável - fui muito contestado e instado a ouvir músicas espirituais. Afinal eu não teria nada de útil a aprender com os Titãs, por exemplo.
No seminário me utilizei de uma crítica dos Titãs para realizar uma reflexão teológica - do papel dos crentes e da religião no mundo, um papel muito bem definido ideologicamente.



Desde os primórdios
Até hoje em dia
O homem ainda faz
O que o macaco fazia
Eu não trabalhava
Eu não sabia
Que o homem criava
E também destruía...

Homem Primata
Capitalismo Selvagem

Eu aprendi
A vida é um jogo
Cada um por si
E Deus contra todos
Você vai morrer
E não vai pro céu
É bom aprender
A vida é cruel...

Homem Primata
Capitalismo Selvagem

Eu me perdi
Na selva de pedra
Eu me perdi


"I'm a cave man
A young man
I fight with my hands
(With my hands)
I am a jungle man
A monkey man
Concrete jungle!
Concrete jungle!"


Provoquei polêmica porque queria refletir sobre nosso papel na sociedade a partir da crítica exposta na canção - que funde capitalismo e cristianismo como já diria Weber: Cada um por si/E Deus contra todos/Você vai morrer/E não vai pro céu/É bom aprender/A vida é cruel...

Numa comunidade conservadora citar um verso ateu para refletir sobre o papel da religião evangélica era muita ousadia.  O verso me ensinou tanto sobre a importância e a ousadia de refletir a partir da mais radical crítica que me seja dirigida, como me ensinou sobre o conteúdo que expõe.

A reflexão nesses versos serviu para trazer de novo, num ambiente teológico, noções que andavam sublimadas e esquecidas pela nova vivência da fé.  A fé é uma arma de acomodação ideológica e alienação política e social.  E não deixará de ser, mesmo que nossas propostas sejam cada vez mais abrangentes e inclusivas.  Sempre estaremos em um ambiente arbitrário, autoritário, ideológico.  Vivemos uma fé que tem um livro sagrado, uma verdade, que é exposta por alguns autorizados - como eu mesmo frequentemente.  Vou lá na frente e falo em nome de Deus.  Não é em meu nome, mas em nome de um poderoso e soberano Deus.  Falar em Seu nome é alienar aqueles sujeitos que me escutam de poder e autonomia.

Ainda assim, aprendi com Homem primata, além de uma síntese precisa do capitalismo [selvagem], a levar em consideração os riscos de alienação política, social e ideológica que a minha fé é capaz de impor.  Sempre.  A maior delas é prometer o céu, vida melhor em outra esfera, e, ao mesmo tempo e por decorrência, estimular a acomodação e a aceitação de uma dura e desonesta vida cruel.  Esse é o discurso de nossas religiões cristãs, ainda que o digam diferente na formalidade da língua (é só perguntar aos gays sobre a perseguição que sofrem de nossos movimentos cristãos conservadores).  A mensagem é clara: esqueçam a vida aqui, não lutem para melhorar a sociedade (que está condenada), espere o céu, sua vida plena será apenas lá.

Saber desse discurso e dessa mensagem reforçam a importância de lembrar da crítica:

A vida é um jogo
Cada um por si
E Deus contra todos
Você vai morrer
E não vai pro céu
É bom aprender
A vida é cruel...

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