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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Agosto da Agonia

Editorial da Revista Catorze
Há muito que se fala aqui neste espaço: a cultura oficial de Natal está há léguas de distância do que é, de fato, produzido pelos artistas locais. Só isso explica a iniciativa do governo em dedicar o mês de agosto ao folclore com o objetivo de transformar Natal na “capital nacional do folclore”. Mais um na lista da megalomania potiguar. Batizado toscamente de Agosto da Alegria o que se viu foi uma tentativa – bem intencionada, sim – de movimentar culturalmente a cidade.

Fora a programação musical, uma ‘aula-performance’ do já repetitivo Ariano Suassuana e a vergonha local da tentativa de discussão e exibição do documentário de Walter Carvalho, o Agosto da Alegria passou como uma marolinha, longe da pompa que objetiva seguir. Não inspirou, não produziu, não foi além do que poderia ter chegado. E pior: não movimentou a cultura local. Preserve as diferenças e fica fácil de constatar que o Festival Agosto de Teatro, descontinuado nessa gestão, contribuiu mais para a cultura natalense do que o evento do governo atual. Deixar de investir em continuidade de coisa que dá certo por ‘birrinha’ com a gestão anterior é um erro comum dos governantes dessa cidade. Vide o falecido Encontro Natalense de Escritores.

O cúmulo do non-sense do Agosto da Alegria foi atingido no último fim de semana. O músico Rodrigo Lacaz, da banda Lunares, foi impedido de tocar músicas em inglês. A produção do evento exigiu que ele tocasse apenas músicas nacionais. A exigência foi feita depois que ele já tinha preparado todo o show. Nada foi combinado anteriormente. O microfone do rapaz chegou a ser desligado e a apresentação, diminuída. Pelo que relata, uma humilhação pública, sem quês nem por quês. A gestão pública de cultura age, em Natal, com o objetivo de fazer a cidade engolir algo que culturalmente não é.

Não moramos em Recife. A cultura natalense está mais repleta de influências cosmopolitas e contemporâneas do que do tradicional, popular, nordestina como querem enfiar goela abaixo dos artistas. Isso não é mérito nem demérito na cidade. É apenas uma faceta da identidade local, fruto da nossa formação populacional, que tem influências desde a região do Seridó, passando por uma série de estados no Brasil e culminando nos confins dos Estados Unidos e Europa. É só lembrar: Natal tem tradição em quadrinhos, em poema processo e até no rock progressivo com o saudoso Impacto Cinco.

Basta sair do ar condicionado da sala do escritório. Conhecer quem de fato produz, freqüentar um pouco a Casa da Ribeira, o DoSol, ou ver as idéias da galera do Departamento de Artes da UFRN para ter uma noção do que é a cultura natalense. Ou, ao menos, chamar os artistas locais para discutir um evento bacana para a cidade e para todo o Rio Grande do Norte e que esteja em consonância com que é a cidade.

Dar murro em ponta de faca: talvez isso resume o Agosto da Alegria. Um evento que veio e que – tomara – não fique.

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