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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

O governo paulista é contra a TV Cultura?

Eugênio Bucci
Do Estadão, via Substantivo Plural 

O título deste artigo não é uma provocação. A pergunta que ele encerra está na ordem do dia. Afinal, o que o Palácio dos Bandeirantes quer da TV Cultura? Pretende asfixiá-la?
Embora essa resposta se esconda nas ambiguidades melífluas do governo, os fatos parecem indicar que sim, a intenção é abandonar a nossa emissora pública à carência total de recursos. Entre as evidências mais recentes, destaquemos uma, apenas uma. Na segunda-feira, reportagem da Folha de S.Paulo, assinada pela repórter Lúcia Valentim Rodrigues, mostra que, ano após ano, vai escasseando o investimento público na Fundação Padre Anchieta (à qual pertencem a Rádio e a TV Cultura). Em 2003, ele representava 81,53% da receita da fundação. Agora, está na casa dos 50%. Em valores absolutos, o declínio é dramático. A previsão de R$ 84 milhões de verba estatal para este ano fica 35% abaixo da verba de 2010.

Ainda que não sejam exatos, esses números não são acidentais. Há neles a consistência de uma política deliberada, embora não declarada. Prestemos atenção, porque, se levada ao limite, essa política vai matar a TV Cultura. Das duas, uma: ou ela não terá recursos para mais nada e se perderá na irrelevância, até desaparecer na garoa cinzenta, às margens do Tietê, ou terá de buscar o faturamento no mercado publicitário – o que já vem fazendo, há uns bons anos – e, nesse caso, ficará cada vez mais parecida com as televisões comerciais. Será a morte, do mesmo jeito.
Uma televisão pública parecida com as emissoras comerciais é uma instituição dispensável. Não tem razão de ser. A TV pública só é necessária às sociedades democráticas porque consegue pôr no ar uma programação alternativa, substancialmente distinta, capaz de dar destaque a atrações que não trariam resultados econômicos a uma empresa que depende de lucro para sobreviver. Exatamente por isso, ela não deve exibir publicidade de lojas e de automóveis em seus intervalos. Quando cai nessa tola armadilha, fica esteticamente similar às outras; a sua cadência, o seu ritmo, vai se tornando igual – e, mais ainda, a sua lógica ordenadora interna é absorvida pelas leis do mercado, como se ela fosse comercial. Aí, ela passa a prestar contas aos anunciantes, em vez de prestar contas à cidadania.
Isso mesmo: a televisão pública presta contas à cidadania. É bem verdade que essa formulação, com essas palavras, eriça as sobrancelhas e franze a calva dos gestores mais, digamos, tecnocráticos. “Mas o que significa essa tal cidadania?”, eles contestam, do alto de sua razoabilidade aritmética. Para que eles entendam – ainda que o esforço seja inútil – seria bom lembrar aqui o exemplo das escolas públicas. Pedir que as escolas públicas deem margem operacional positiva no final do ano seria um contrassenso, e disso eles bem sabem. As escolas públicas existem não para dar dinheiro no balanço contábil, mas para produzir conhecimento e qualificar gente numa escala que não aparece em business plan, mas faz toda a diferença no progresso e na vida nacional. A televisão pública é mais ou menos a mesma coisa: sem ela a vida cultural se amofina, a diversidade das ideias se apequena, o horizonte existencial da Nação se estreita. Assim como a boa escola pública, a emissora pública presta o seu serviço à democracia, ao desenvolvimento, à educação. Assim como a escola pública, ela presta contas ao cidadão (não ao consumidor) e à sociedade (não ao mercado).
“Você está exagerando, meu caro”, vai debochar o tecnocrata. E, no entanto, não há exagero algum aqui. Em todas as democracias maduras existem instituições de comunicação pública. E todas elas vivem de dinheiro público. Mesmo num modelo de financiamento como o da BBC, baseado na cobrança de uma taxa anual (compulsória) nos lares com televisão, a garantia de financiamento vem do Estado, pois a taxa é cobrada por força de lei, assegurada pelo Estado. Assim, o dinheiro que sustenta a BBC é dinheiro público. Nos Estados Unidos, as emissoras da National Public Radio (NPR) e do Public Broadcasting Service (PBS) recebem verba estatal. Não adianta procurar, não existe outra saída. Se o Estado não assegurar o financiamento das emissoras públicas, elas fenecem: ou morrem no acostamento, sucateadas, ou se convertem nesses monstrengos de segunda linha, exibindo comerciais de segunda linha e programas de quinta (existem algumas dessas pelo mundo).
Em resumo, cabe ao Estado assegurar os meios de financiamento público – e, de outro lado, cabe à direção da emissora pública promover uma gestão transparente, eficiente, baseada nos princípios da legalidade, da moralidade e da economicidade. É evidente que este artigo não defende o cabide de empregos nem a instrumentalização das antenas pelos interesses partidários de governantes – essa é a pior doença nas emissoras públicas brasileiras. A fórmula saudável reside na combinação do financiamento público com gestão fiscalizada, auditada e competente, mas independente tanto do governo quanto do mercado.
Quanto a isso, a atual direção da Fundação Padre Anchieta vem dando mostras de que tem compromisso real com o imperativo inadiável de sanear a administração. Ela chegou a demitiu funcionários para ganhar produtividade e combater inchaços que eram inaceitáveis. Há coragem e disposição genuinamente pública na direção da fundação. O que falta é apoio claro do governo do Estado.
Falta, enfim, um projeto claro. A TV Cultura ainda é a única emissora brasileira a merecer o adjetivo pública. Ela não tem funções governamentais e opera com boa margem de independência. Cabe ao governo decidir e declarar se quer mantê-la ou se quer destruí-la.

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