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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Militares, insubordinação e ideologia

Com todo o respeito que porventura eu precise ter aos militares, gostaria de entender o sentido de algumas coisas que eles falam.  Ou seus porta-vozes informais.
Diz Josias de Sousa que o general Augusto Heleno mandou um recado ao seu novo chefe, Celso Amorim:  Lembro ao [novo] ministro que as Forças Armadas são instituições de Estado, apolíticas e apartidárias… Comprometimento ideológico tem repercussão altamente negativa no meio militar.
É de deixar boquiaberto a incapacidade crítica de Josias de Sousa diante da leviandade do que disse o general: nenhuma crítica, nenhuma análise.  Parece que tem sentido um general soltar uma frase assim, especialmente esse general.

Quem quer fazer crer que as Forças Armadas são apolíticas, apartidárias e sem comprometimento ideológico tem, em primeiro lugar, um sério problema com a história.  É evidente que quando Augusto Heleno fala em comprometimento ideológico ele fala de esquerda - afinal é típico do pensamento eivado de ideologia não se compreender dessa forma.  Porque se compreendesse, não poderia jamais emitir uma frase assim - digo, com o mínimo de honestidade intelectual.   Em que pese que quem manda recados cifrados à superiores como fez Heleno não tenha realmente nenhuma pretensão de ter honestidade intelectual.  Quero dizer: é de duvidar que um homem bem formado nas Forças Armadas e sua ideologia não seja capaz de saber que fala de um lugar ideológico.  O recado aos superiores é claro: não toleramos a esquerda.  
Há uma desonestidade intelectual aí presente também no trabalho do repórter que contribui no reforço à posição de Heleno: ele não avaliou, criticou, comparou - fez crer que realmente é assim: nossos militares são apolíticos, não-ideológicos e tudo o mais.
Sem precisar ainda sair do âmbito da história recente, o próprio Heleno é prova que desmente o que diz.  Será que alguém, fora Heleno e Josias, acredita que expressar crítica à política de governo sobre a Amazônia como lamentável para não dizer caótica é emitir uma opinião não-ideológica?  Será que alguém acredita que o Clube Militar do Rio de Janeiro, fora seus membros, não vê suas manifestações e ações como alinhadas a uma direita reacionária que tem saudades da ditadura?  Será que não é claro que as manifestações de Heleno e seus colegas de Clube se ligam à oposição no discurso de Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi - e de representantes da diplomacia de guerra da direita de outros tempos?
E se saíssemos da história recente, veríamos em quantos momentos os militares apolíticos e sem comprometimentos ideológicos intervieram - desde o golpe de Deodoro da Fonseca até o de 1964 e a sangrenta ditadura sob a qual vivemos 21 anos.  
Talvez Josias não seja capaz de avaliar a fala dos militares - que inclusive no que representa de insubordinação à presidenta e ao seu ministro da defesa - porque o jornal a que serve, a Folha, apoiador de primeira hora da ditadura, teve a ousadia de classificá-la de ditabranda em editorial.  Maior alinhamento ideológico com os militares impossível.

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