Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Londres em chamas: Justiça britânica endurece e criminaliza protestos

Por Marcelo Justo
Na Carta Maior

Em Londres, um homem sem antecedentes penais, que roubou garrafas d’água no valor de 4 euros, foi condenado a seis meses. Em uma sociedade desconcertada pelos piores distúrbios desde o pós-guerra, os juízes parecem decididos a ditar sentenças draconianas. Segundo os críticos, a justiça britânica está perdendo o rumo com sentenças que tem uma desproporção absoluta entre delito e castigo. A reportagem é de Marcelo Justo, direto de Londres.
Em Chester, noroeste da Inglaterra, dois jovens de 20 e 22 anos que convocaram seus amigos pelo Facebook para se juntarem aos distúrbios – sem que ninguém seguisse a convocação – foram sentenciados a quatro anos de prisão cada um. Em Londres, um homem sem antecedentes penais, que roubou garrafas d’água no valor de 4 euros, foi condenado a seis meses. Em uma sociedade desconcertada pelos piores distúrbios desde o pós-guerra, os juízes parecem decididos a ditar sentenças draconianas. Segundo os críticos, a justiça britânica está perdendo o rumo com sentenças que tem uma desproporção absoluta entre delito e castigo. “As sentenças não podem depender do capricho do juiz ou do estado da opinião pública. Há regras claras sobre a relação proporcional que deve haver entre delito e sentença”, disse à BBC, o Conselheiro Legal da Coroa, John Cooper.

No seu regresso antecipado de férias, em pleno apogeu dos saques, o primeiro ministro David Cameron assinalou que não deixaria que uma “falsa concepção” dos direitos humanos obstaculizasse a segurança. Cameron se referia à publicação nos meios de comunicação das fotos de menores de idade acusados de saque. “Espero que caia sobre eles todo o peso da lei”, enfatizou. A mensagem não passou despercebida para os tribunais que estão trabalhando a toque de caixa para processar os mais de 2.700 detidos nos distúrbios em Londres e em outras cidades inglesas. Enquanto, normalmente, nega-se a apenas uns 10% de acusados a liberdade sob fiança por delitos desta monta, agora 64% tiveram o pedido negado, permanecendo presos. O temor de uma justiça sumária e dependente do poder político fez soar o alarma.
Uma magistrada em Camberwell, bairro do sul de Londres, Novello Noades, colocou o dedo na ferida ao dizer que o governo havia passado uma orientação recomendando aos juízes que ditassem penas de prisão para os responsáveis por delitos. A magistrada se retratou mais tarde, mas a reputação da justiça já tinha ficado comprometida. O juiz da Corte de Manchester, Andrew Gilbart, marcou o passo com a primeira sentença ditada na Inglaterra pelos distúrbios, uma sentença muito acima dos seis meses máximos que estabelece a lei para delitos desta natureza. Os três homens, que tinham sido presos 24 horas antes e reconheceram sua responsabilidade pelos fatos, fator normalmente atenuante, foram condenados a um total de dois anos de prisão. “Não tenho dúvida que o propósito da corte deve ser demonstrar que estes atos delitivos coletivos têm que receber uma sentença exemplar, muito superior a se tivessem sido cometidos individualmente”, assinalou o juiz.
Esta interpretação da lei foi duramente questionada por distintas organizações legais e vários deputados. “A justiça deve ser restauradora e não retributiva. Deveria se combinar ou alternar a sentença com serviço comunitário e um cara-a-cara com as vítimas que permitisse aos responsáveis entender a consequência de seus atos”, disse um deputado da coalizão do governo, o liberal democrata Tom Brake. O advogado de uma organização especializada em temas de justiça, a Howard League for Penal Reform, Andrew Neilson, disse ao “The Times” que os distúrbios públicos poderiam ser considerados um agravante, mas jamais poderia apagar o princípio de proporcionalidade das sentenças, pedra fundamental de um sistema judicial. Os advogados antecipam uma catarata de apelações das sentenças, mas o deputado conservador de Croydon, um bairro ao sul de Londres, Gavin Barwell, disse que seus eleitores apoiavam plenamente este endurecimento dos magistrados.


A risada de Kafka
A exigência política e a celeridade a que se veem obrigados a trabalhar os tribunais está produzindo algumas cenas dignas de uma mescla de Kafka e Buster Keaton.

Em uma corte, num domingo, a promotora – que havia se apresentado voluntariamente para trabalhar no fim de semana – não conseguia encontrar os papeis do caso que o juiz devia julgar. Cenas similares se repetiram em outros tribunais que tentavam acelerar o procedimento, mas não encontravam os papeis e documentos relativos aos acusados.

Enquanto isso, os 500 policiais que trabalham no operativo Withern seguem fazendo prisões graças à informação que recebem das 20 mil horas de gravação dos circuitos fechados de televisão. Esta investigação ainda em curso, somada ao endurecimento da justiça e às mais de 1.000 pessoas que ainda não receberam sentença, colocam um problema adicional. Segundo dados oficiais, 80 das 132 prisões de Inglaterra e Gales estão superlotadas: onde serão alojados os novos detentos?

Criminalizando o protesto
O endurecimento do aparato judicial não é tão repentino como poderia parecer. Os juízes ditaram sentenças similares aos acusados de violência durante as manifestações contra a triplicação das matrículas universitárias em 2010 e durante o protesto realizado em março contra os cortes no orçamento do governo.

O filho do guitarrista do Pink Floyd, Charlie Wilmour, recebeu uma pena de 16 meses por lançar um cubo contra o Rolls Royce no qual viajavam o príncipe Charles e sua esposa Camila Parker-Bowles e por desferir chutes em uma vitrine. Francis Fernie recebeu um ano por lançar dois pedaços de pau contra a polícia durante um protesto sindical. O caso de Alfie Meadows, um estudante de 20 anos, é mais absurdo ainda. Medows foi ferido nos protestos, sofreu uma hemorragia cerebral e espera julgamento por “sua conduta violenta”.

Segundo o famoso advogado inglês, Michael Mansfield, que defendeu os quatro acusados de Guilford (caso retratado no filme “Em nome do pai”), está se atentando contra o direito ao protesto. “Celebramos o protesto no mundo árabe e condenamos seus governos pelo uso da força. Enquanto isso criminalizamos o protesto aqui. Isso é uma tentativa de intimidação para que as pessoas deixem de se manifestar”, assinalou Mansfield. Com o novo aumento do desemprego anunciado nesta quarta-feira e quase dois milhões e meio de pessoas desempregadas é previsível que se volte a exercer este direito ao protesto.

Comentários

Postagens mais visitadas