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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Joias do pensamento

A nomeação do novo Ministro da Defesa permitiu que se confirmasse que o país está meio atrasado no que se refere à guerra fria. O leitor não leu mal: é mesmo de guerra fria que estou falando, mais precisamente, de um de seus resquícios. É daquela época uma definição torta da palavra "ideologia", que perdura.
Trata-se de palavra que foi objeto de muitíssimos debates. O leitor curioso pode ir a uma (boa) livraria ou biblioteca e verificar o fato. Mais geralmente, ideologia é avaliada em relação a ciência. Ideológico significaria não científico. É o sentido que lhe dá Delfim Neto, quase semanalmente, quando critica os economistas que pensam que fazem ciência. Insiste em dizer que fazem ideologia, ou seja, que defendem crenças não objetivamente fundamentadas.

A tradição marxista a definia como falsa consciência, ou seja, uma concepção equivocada do mundo, como, por exemplo, das relações entre patrão e empregado ou sobre o valor ou a função do salário (é uma concepção próxima de 'não científica', isto é, não verdadeira). Uma boa definição diz que a ideologia expressa nossa relação imaginária com o mundo - de novo, não seria a relação real. Outra: uma ideologia faz parecer natural o que é histórico e circunstancial (diferentes papeis de homens e de mulheres, por exemplo).
Para a "direita" brasileira, ideológico quer dizer de esquerda. Ou seja, a direita (some-se a ela o centro) acha que não é ideológica, que só a esquerda seria. É o que fica claro na declaração de pelo menos um general (e de diversos de seus "sargentos"), qualificando os pontos de vista de Celso Amorim como ideológicos. Eles fazem uma oposição curiosa: "ideológico" versus "de Estado", como se "de Estado" ("política de Estado", por exemplo) fosse um antônimo de "ideológico" ("política ideológica").
Ora, as políticas de Estado podem ser, e são, ideológicas. Votar a favor de certa política dos direitos humanos ou para o Oriente Médio é tão ideológico quanto votar contra. Uma das posições será provavelmente mais defensável do que a outra, e cada um achará que a sua é melhor. Ambas são ideológicas. Mas, a crer nos "especialistas", seu discurso seria racional, neutro, científico. E o dos outros, ideológico: falso e enviesado.
Que os generais repitam esta refinada cultura eu entendo. O currículo das escolas militares é meio antigo. Mas que o grosso dos jornalistas e dos intelectuais que eles convidam para suas mesas redondas, que são sempre os mesmos, ainda tenha uma igual é assustador.

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