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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

#EjectJobim: a volta de Celso Amorim e do PIG

Passei algumas horas off line, mas antes de me envolver em duas interessantes conversas profissionais, já estava mais que encaminhado o destino de #EjectJobim.  O governo já deixara claro que esperava pelo seu pedido de exoneração.
Esse está sendo um rico episódio da história do governo Dilma.  E é capaz de eu voltar a dar meu apoio à presidenta.  Não apenas pela exoneração de Jobim, sobre quem quero falar mais detalhadamente em outro post, ou pela nomeação do ex-chanceler Celso Amorim (mais cedo, por volta das 16 horas, manifestara aqui que, apesar do favorito da imprensa ser o vice Michel Temer, eu torcia por Amorim).
A indicação de Amorim está alimentando o país de uma onda de idiotice generalizada na imprensa brasileira, quase suficiente para eu voltar atrás de minha postura crítica contra a presidenta que ajudei a eleger.  Senão vejamos.
 Toda a imprensa festejou em coro a postura que me parece um tanto moralista e quase udenista de Dilma com relação ao que aconteceu no Ministério dos Transporte.  Do ponto de vista da comunicação, uma excelente estratégia, inclusive em imprimir a marca pessoal do governo, mas associada a outras atitudes, tudo me soou como um endireitamento mais explícito do governo.  Falei sobre isso aqui mais cedo, quando introduzia texto que republiquei do Nassif.
Mas qual a reação sobre a exoneração do #EjectJobim, incompetente na compra dos jatos da FAB que enrola há mais de três anos, entreguista que passava informações a Washington e insubordinado que insultou o governo do qual fazia parte diversas vezes nos últimos dias?  No mínimo chamaria essa reação de esquizofrênica.  Vou ficar somente nas análises do UOL.
O genial cientista político David Fleischer, da UNB, diz no UOL que a saída de Jobim é mais uma queda de um lulista que estava a contragosto da presidente. Espere um pouco.  Jobim, ex-ministro de FHC, eleitor de Serra em duas eleições, indicado ao STF pelo ex-presidente FHC, renunciado ao STF com a esperança de ser candidato a presidente em 2006, filiado ao PMDB, era lulista no governo?  Lulista?  E, por consequência, podemos imaginar que o genial Fleischer considera que o ex-chanceler Celso Amorim, responsável pela exitosa política externa do governo Lula, filiado ao PT, é menos lulista?  Diz o UOL: Para ele, aos poucos, a presidente está se livrando de pressões e influências do ex-presidente Lula. "Ela está se livrando de lulistas no governo. Está se tornando um governo com a marca registrada de Dilma Rousseff", afirma o professor.  Amorim representa menos o governo Lula que Jobim?  Que ginástica analítica foi essa para justificar uma posição ideológica e passar o claro recado do PIG de que não aceitará um retorno à posição de empoderamento internacional do país conquistada sob a dupla Lula-Amorim.  O texto mostra que o maior inimigo ainda é Lula, não Dilma.
A excelente analista Eliane Cantanhêde afirma que Jobim era um excelente ministro: "Ele estruturou o ministério da Defesa, criou a estratégia nacional de defesa e deixou todos os programas de reequipamento da Marinha, da Aeronáutica e do exército prontos", analisa a colunista.  Como assim excelente?  Tão excelente que não conseguiu fechar a compra dos caças, provocou constrangimentos ao governo do que se refere à política de direitos humanos (com sua oposição pública ao PNDH 3), à política de direito à memória com respeito à repressão dos militares na ditadura - que culminou com a polêmica do sigilo de documentos que, segundo ele, nem existem mais -, à Comissão da Verdade.  Excelente?  Para um PIG que defende interesses americanos e que estão vendo um dos principais informantes da Casa Branca ser destituído de seu posto e de seu poder.
O festival de pérolas ditas sobre a volta de Celso Amorim ao ministério teve como corolário a análise muito inteligente de Vera Magalhães, do Blog Presidente 40, da Folha/UOL.  Vera cita a suposta mágoa de Amorim por não ter permanecido no cargo no governo Dilma, fala sobre a tentativa da presidenta de estabelecer sua própria agenda e equipe, distanciando-se do governo Lula através da troca certa de ministros indicados por ele.  Aí, a pérola.  Segundo Vera, a volta de Amorim ao tabuleiro contraria essa expectativa e denota a escassez de nomes para uma pasta de manejo complexo, como a Defesa.  Quer dizer: para a jornalista, que certamente transmite esse sentimento do PIG e também do PMDB, que perde o cargo, Amorim foi escolhido por falta de opção.  E a presidenta é uma adversária de Lula, sua opositora.  Vera prossegue e encerra sua pérola, com sábias palavras:
Além disso, causa estranhamento a reabilitação de Amorim depois da guinada dada por Dilma à condução da política externa --principalmente no que tange às questões de direitos humanos --, que rendeu, inclusive, críticas do próprio ex-chanceler em entrevista à Folha em março.
Com essas reações tão ideológicas e tão extremadas tudo indica que a escolha da presidenta foi perfeita.  Atendeu, inclusive, o anseio das bases sociais e políticas que ajudaram a eleger o governo.  Pode ser um bom sinal de retorno às suas bases.  Ainda é cedo, evidente.  Ainda há recuos políticos e ideológicos que Dilma efetivou que ainda estão longe de serem desfeitos.  Mas é sim um bom começo.  A volta de Amorim e a volta do PIG.

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