Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Ah! Eu tou maluco!

Até a entrada do mundo ocidental na Modernidade, bem o mostra Foucault, a loucura circulava no meio da sociedade. Mesmo que pudesse haver uma série de restrições e exceções quanto aos loucos, não havia encarceramentos e a voz do louco era assumida como divina voz profética da verdade. Ainda assim, o louco era ele mesmo ou quem ele quissesse ser. 

Com o nascimento dos primeiros manicômios, substituto social dos leprosários, e o surgimento das clínicas e da terapeutização da loucura, tudo começa a mudar de forma. A voz dos loucos precisa ser calada, sua presença isolada, seu corpo trancafiado, sua existencia marginalizada. O louco, agora, não pode ser nada ou ninguém. 
Hospitais psiquátricos estão a caminho de seu fim e cada vez menos loucos são encarcerados. O caminho é a inserção na sociedade. O problema é vivermos em uma geraçao completamente dependente de medicação psiquiátrica - loucos ou não -, e das drogas em geral - lícitas ou não. 

Quem já tomou, por menos tempo que tenha sido, alguma medicação de cunho psiquiátrico, sabe que a pessoa se converte em qualquer coisa menos o sujeito que sempre foi.  

Em outras palavras, vivemos uma época em que se interna menos, se isola menos, um mundo mais plural. Mas vivemos um tempo em que nos esforçamos mais por não sermos um sujeito. 

A exclusão, o silenciamento, a marginalização, a eliminação dos sujeitos loucos são hoje medicamentosas, sem necessariamente serem hospitalares.  E, em boa parte do tempo, somos nós que voluntariamente escolhemos usar nossas drogas e silenciar nossas vozes e nossos sujeitos.

Uma explosão como Ah! eu tou maluco!, brado de alegria, não significa nada. E se permitirmos que se torne um grito de liberdade, uma afirmação de nossa auto-consciencia, de reinserção das vozes livres, poderosas e proféticas dos loucos e sãos, marca de uma nova forma de ser sociedade, utópica: Ah! eu sou maluco!

Comentários

Postagens mais visitadas